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BRASIL: 20/03/2006
Moradores de rua
Moradores de rua falam de seus problemas

Alberto Garuti

No número passado de Revista “MUNDO e MISSÃO” apresentamos uma entrevista com o Pe. Júlio Lancellotti, vigário episcopal da arquidiocese de São Paulo para os moradores de rua. Hoje apresentamos, sempre sobre o mesmo assunto, duas entrevistas feitas com dois membros do Movimento de Defesa da População da Rua: Antônio Carlos de Araújo e Sebastião Nicomedes de Oliveira. Eles nos receberam Moradores de rua falam de seus problemas

Morar nas ruas de São Paulo: o drama de muitas pessoas que, por uma série de perdas, muitas vezes não por culpa própria, se encontraram privadas de uma das maiores necessidades da pessoa humana: uma casa, um lar, com tudo aquilo que isso representa, isto é aconchego, um mínimo de conforto, privacidade, calor humano, família. No número passado da Revista “MUNDO e MISSÃO” apresentamos uma entrevista com o Pe. Júlio Lancellotti, vigário episcopal da arquidiocese de São Paulo para os moradores de rua. Hoje apresentamos, sempre sobre o mesmo assunto, duas entrevistas feitas com dois membros do Movimento de Defesa da População da Rua: Antônio Carlos de Araújo e Sebastião Nicomedes de Oliveira. Eles nos receberam no Centro comunitário “S. Martinho de Lima”, embaixo do viaduto Guadalajara.

Entrevista com Antônio Carlos de Araújo

Revista “MUNDO e MISSÃO” - Qual o seu nome e suas tarefas?

AntCarlos - Meu nome é Antônio Carlos de Araújo, do Movimento de Defesa da População de Rua. Nossa tarefa é correr atrás de políticos, providenciar frentes de trabalho para os moradores de rua e muitas outras coisas.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O que é povo de rua?

AntCarlos - Somos um povo que procura uma vivência, uma realidade. Eu já fui catador de papel, entre nós há os que têm problemas de droga, problemas de álcool, os que se encontram desempregados. Há vários tipos de pessoas entre nós: os intelectuais, como o Sr. Sebastião que está aqui comigo e que está lançando um trabalho teatral (“O diabo e o carneiro”), um livro (“O pardal”, que seria o povo de rua), há pessoas que estão atrás de um objetivo na vida, há pessoas que têm problemas mentais.


Sebastião Nicomedes de Oliveira e Antônio Carlos de Araujo, coordenadores do movimento de defesa da população da rua

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O povo da rua mora e dorme na rua?

AntCarlos - Têm os que estão no albergue, mas a qualquer momento podem encontrar-se na rua novamente. E quem está no albergue não está lá o dia inteiro. Só vai para dormir. Tem albergue em que as pessoas podem entrar no máximo até as 8 horas. Quem estiver trabalhando pode entrar um pouquinho mais tarde, mas de manhã todos têm que sair às 5 horas, ou às 6, conforme o albergue. E tem pessoas que moram e dormem na rua mesmo. Quem fizer uso de bebidas alcoólicas não é aceito no albergue.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - Qual é a sua função no movimento?

AntCarlos - Objetivo do movimento é lutar pelas políticas públicas em favor da população de rua.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O que a política está fazendo e o que deveria fazer?

Revista “MUNDO e MISSÃO” - Em todo este tempo desde 1997 a gente está lutando para que seja respeitada a lei n.º 2316 que fala dos direitos dos moradores de rua. Os prefeitos Paulo Maluf e Pita aprovaram a Lei, a prefeita Marta a regulamentou. A gente está lutando para que o que a lei diz seja respeitado. Porque muitas coisas que estão dentro da lei ainda não estão sendo cumpridas.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O que por ex.?


Artezanato no centro Comunitário “S. Martinho de Lima”

AntCarlos - Principalmente o que diz respeito a pessoas com deficiências mentais. Para isso nós só temos uma casa, no Canindé. A gente está lutando para que tenha mais e mais pessoal especializado para atender a essas pessoas, como psicólogos e psiquiatras, por exemplo. Também lutamos para que se faça alguma coisas para pessoas que estão na rua e que têm problemas de desemprego. Muitos deles são profissionais e muitos deles vieram da construção civil que hoje está meio devagar, não é como antigamente que empregava muitas pessoas.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - Outras coisas que a política deveria fazer por lei e não faz?

AntCarlos - Está faltando um pouco de respeito com o ser humano. A própria guarda metropolitana muitas vezes viola os direitos do povo da rua. Por exemplo, a gente está sentado na praça e é removido daquele lugar. Na calçada que estava na Av. Paulista, onde tem o túnel da Rebouças, aí moravam muitos moradores de rua. Fizeram a rampa de um jeito que não é mais possível dormir alí. Agora parece haver mais interesse das autoridades porque a gente está brigando.

Entrevista com Sebastião Nicomedes de Oliveira.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O que funciona neste centro?


Artezanato no centro Comunitário “S. Martinho de Lima”

Sebast. - É um centro de convivência. Pessoas que moram na rua ou nos cortiços o utilizam para almoço, para tomar um banho, para lavar suas roupas. Independentemente do fato de dormirem na rua ou no albergue, as pessoas podem almoçar aqui. O centro não é albergue, não é lugar para dormir a noite. Supre também a necessidade que tem a cidade de S. Paulo de um banheiro público e gratuito. É constrangedor para as pessoas que moram na rua ter que utilizar a própria calçada porque não existem banheiros.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O quer os srs. desejariam que os políticos fizessem para o povo da rua?

Sebast. - Algo que gerasse mais autonomia para os moradores de rua. Um programa habitacional, por ex., para poder sair da rede de albergue e de moradias provisórias e tentar recuperar sua vida novamente. O albergue é solução provisória, como o são as frentes de trabalho. Não existe política para oferecer a possibilidade de adquirir uma casa para o povo de rua, nem existe, até agora, a possibilidade de um mutirão para que se possa construir essa casa. Não existe mais o programa bolsa-aluguel, um programa que contemplava 30 meses de aluguel. Agora está sendo transformado em 6 meses.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O sr. queria explicar melhor?

Sebast. - O programa bolsa-aluguel era um programa que previa a possibilidade de alugar um imóvel (um quarto, uma quitinete, uma casa) por 250-300 reis por mês e seria pago em parceria com a secretaria da habitação e a Caixa Econômica. Esse programa durava 30 meses, isto é 2 anos e meio, e isso dava a possibilidade de a pessoa achar um novo emprego e continuar pagando em seguida sem precisar da ajuda do governo. Agora o prazo foi reduzido a 6 meses e isso nos dá poucas possibilidades de continuar no plano. Foi mudado porque acharam que era obra do outro prefeito e quem entrou quis mudar tudo. O ano passado parou de vez.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O que é que o povo da rua mais gostaria de ter?

Sebast. - Um trabalho, mas não consegue. Um trabalho facilitaria a pessoa para sair da rede de albergue e da rua.O morador de rua sai da rua para dormir no albergue mas continua morador de rua. O albergue não é a casa dele. É um favor. Ele vai ficar ali por um tempo de 3 a 6 meses, podendo ser ampliado, mas a situação é inconstante o tempo todo. Estes 6 meses são concedidos poeticamente pensando que neste tempo ele poderia achar um trabalho. Mas a estrutura para fazer com que isso aconteça não existe.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - Qual a dificuldade maior para achar um trabalho?

Sebast. - Documentos. No albergue não tem ajuda para conseguir documentos, para pô-los em ordem, para tirar fotografias, nem encaminhamento para um lugar onde os documentos possam ser


Refeitório do centro comunitário

conseguidos. O morador de rua tem que descobrir tudo sozinho. Achar um trabalho é difícil. Se você der o endereço do albergue, será discriminado.Não querem saber de pessoas de albergue, albergue para a sociedade é lugar de bandidos, de drogados, de bêbados. Existe também o problema da comunicação. O recado não chega. Ou não passam um recado de uma agência de emprego para eu me apresentar, ou passam com atraso.

E existe a questão da roupa. Se você não se apresentar no albergue com roupa de mendigo, sujo, rasgado, eles acham que não está apto para o albergue, está sendo visado como se estivesse usurpando a casa. Se arranjar um celular, pior ainda. Agora, na firma, se não conseguir uma roupa decente não consegue emprego. Eles cuidam muito da aparência. Você sai às 6 horas do albergue e recebeu um recado para aparecer às 10 horas ou à 1 hora da tarde para ver o emprego. Do jeito que você sai de lá, desse jeito vai comparecer no lugar onde poderia arranjar serviço. Não consegue nem trocar de roupa, nem tomar banho. Tudo isso dificulta você a achar um emprego.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - Qual é sua tarefa na coordenação?

Sebast. - Eu faço parte da coordenação do movimento em nível nacional. A consciência que precisa mudar está acontecendo na maioria das pessoas, a população de rua está consciente que as coisas precisam mudar, está consciente de seus direitos. Eu faço parte deste grupo que acordou, a rua não é para mim objetivo de vida, não vai me trazer nada. Mas eu não sou remunerado para isso. Não recebo um vale transporte para ir até santo Amaro, para ir à prefeitura. Eu participo com a minha dedicação voluntária.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - O sr. mora na rua?

Sebast. - Tenho uma moradia provisória. É tipo uma república. Lá pago uma taxa simbólica para morar: 25 reais. Mas já é um passo. Espero ter uma pensão, uma quitinete para perder aquele estigma da rua, estou neste processo. Ir para à rua é mais fácil, sair é quase impossível. Eu falo com o prefeito,


Evento cultural no centro Comunitário “S. Martinho de Lima”

com o governador, tenho acesso ao presidente da república, viajo muitas vezes à Brasília, mas no bolso eu não tenho um real. Essa é a diferença. O problema não é só social, como se discute aí nos debates. É também econômico. Passa a ser um problema pessoal e pode se tornar um problema psiquico. Desespero, falta de alternativas.

Muita gente bebe e se torna alcoolatra, mas é mais na tentativa de fugir da realidade. Você está morando na rua e depende de outros para comer um prato de sopa, não tem um lugar para tomar banho, tem toda a gente que passa começa a te olhar daquele jeito e você sabe que não tem um curriculo, uma formação profissional, não está preparado psiquicamente para enfrentar um monte de problemas, coisas que o mercado exige. Eu não perdi a esperança porque conservei meu sonho. Muita gente não sonha mais. Aí é mais complicado.

Revista “MUNDO e MISSÃO” - A sua luta é ampla.Não somente sair da rua, mas abrir caminho para que outros possam sair também.

Sebast. - Muita gente estava na rua, conseguiu emprego, saiu e esqueceu de tudo. Eu sou mais coletivo, não quero sair sozinho. Alguns que moram na rua não sabem mais quem são, não sabem mais que são gente, têm vergonha até de levantar os olhos.

Escrevi uma história: “Diário de um carroceiro”. Nós moradores de rua somos os carroceiros e a peça é um monólogo. Um grupo profissional de teatro pegou esta peça e vão levá-la para o Brasil e para o mundo. É uma forma de fazer a sociedade enxergar essa verdade.

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Previsão para 20 de Março

19.º/32.º

Segunda-feira de sol e nebulosidade variada com pancadas isoladas de chuva

Probabilidade de chuva: 70 %
Volume estimado: 05 mm

Boletim Solar
20 Mar. 0903 - UTC

Ocorrência de fracas tempestades
solares.

Face Ocidental

A animação ao lado
mostra a sequência das
últimas 5 imagens em
infravermelho enviadas
pelo satélite GOES-12.


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