Revista "MUNDO e MISSÃO"

Teologia

EVITAR ACÚMULO DE FUNÇÕES

O verdadeiro trabalho em equipe funciona como um corpo, onde cada membro tem a sua função. No corpo de Cristo, que é a Igreja, do qual fazemos parte, também deve ser assim. Nele há várias funções e cada prestador(a) de serviço deve exercer bem a sua função. E somente a sua! No corpo, o pé não pode fazer as vezes da mão; a mão não pode substituir a cabeça... No trabalho em equipe é a mesma coisa. Nele deve estar muito bem expresso aquilo que somos, corpo de Cristo feito de muitos membros, e cada qual com sua função a serviço do todo. O padre não deve fazer as leituras ou as preces, que cabem ao povo.

O povo não deve rezar as orações que competem ao padre. O coral não deve substituir o povo nas partes que lhe competem. Cada qual deve ficar com a sua função, com o seu serviço, e fazê-lo bem. Portanto, deve-se evitar que a mesma pessoa acumule o serviço de outras: ser leitor e acólito, cantor e animador... Trata-se de um princípio que vem do próprio Concílio Vaticano II: “Nas celebrações litúrgicas, cada qual, ministro ou fiel, ao desempenhar a sua função, faça tudo e só aquilo que, pela natureza da coisa ou pelas normas litúrgicas, lhe compete” (SC 28).

TRABALHAR COMO UM CORPO

“Porém, não basta ter bons leitores(as), bons animadores(as), cantores(as), recepcionistas, um bom presidente...” – escreve a teóloga liturgista Ione Buyst – “É preciso que juntos formem uma equipe de celebração. Uma equipe é como uma banda: cada instrumento é importante para o conjunto, mas nenhum instrumento deve tocar isolado dos outros. Uma equipe é como um time de futebol: cada jogador tem uma tarefa e uma posição. Mas é o time que joga, é o time que perde, é o time que ganha, e não cada jogador isolado.

Uma equipe é como uma palavra: somente o conjunto das letras é que dá o significado da palavra. As letras, isoladas uma da outra, não dizem nada. Assim também numa equipe de celebração; não são os leitores os únicos responsáveis pela leitura, e sim toda a equipe. Não é o presidente o único responsável por uma boa homilia, por um clima de oração e de participação: toda a equipe é responsável” (Equipe de Liturgia. Petrópolis, Vozes, 2000, p. 56).

A PRESENÇA DO PADRE NA EQUIPE

O padre é membro nato da equipe de celebração. Acontece que, devido à sobrecarga de atividades, os padres geralmente não conseguem se fazer presentes às reuniões de preparação da celebração. Então, fica a pergunta: Como assegurar o relacionamento entre o padre e o restante da equipe? Ione Buyst apresenta algumas boas soluções já encontradas:

“– O padre participa da reunião da equipe esporadicamente: uma vez por mês, ou a cada dois meses..., conforme suas possibilidades. Nesta ocasião, costuma-se fazer a avaliação e a programação do trabalho da equipe. Outros fazem ainda uma celebração eucarística, em estilo mais familiar.

– O padre tem contato mais direto com o coordenador ou coordenadora da equipe que o mantém informado das decisões e dele recebe sugestões para o trabalho.

– O padre se encontra com a equipe alguns minutos antes da celebração e se informa sobre aquilo que o grupo preparou, valorizando e respeitando, na medida do possível, as decisões tomadas por ele. (Evidentemente, esta não é uma boa solução e deve ser evitada).

– O padre deve respeitar e valorizar as decisões da equipe, mas não pode ficar escravo nem destas decisões, nem das rubricas do missal. Como pastor, ele deve adaptar a celebração às necessidades pastorais da comunidade reunida. E a equipe deve ser formada neste espírito de flexibilidade” (ibid., p. 57).

Pessoalmente conheço padres que participam, toda semana, da reunião regular da equipe para a preparação da celebração, o que seria o ideal para os demais. E, nesta reunião, preparam juntos inclusive até mesmo as linhas gerais da homilia.

EVITAR MONOPÓLIOS

Houve uma época em que o padre decidia tudo sozinho sobre o andamento da celebração. E ainda existem padres que não assimilaram a renovação do Vaticano II. Afirmam que “não precisam da equipe”, que ela “complica tudo”, que ele “dá conta da celebração muito bem sozinho”. E houve também um tempo em que os leitores, cantores etc. eram considerados como uma espécie de “ajudantes do padre”, tarefeiros. O que o padre mandava, eles executavam. Mas não formavam com o padre uma equipe que refletia, decidia e trabalhava em comum.

Hoje, há o perigo de a equipe cair no mesmo erro. O erro do “monopólio”, pensando ser ela a única que pode agir no campo, fazendo-se a dona da celebração. “Na verdade, a equipe deve lembrar sempre que está aí como parte da assembléia. Deve ficar em permanente contato com a comunidade, colhendo sugestões e críticas, convidando pessoas para entrar na equipe, criando novas equipes para atender às novas necessidades da comunidade. Tudo deve ser feito em espírito de serviço: com competência e humildade, com amor e disponibilidade, com dedicação e simplicidade... Nada de autoritarismo, formalismo, ares de poder...” (ibid., p. 57).

Aqui vale lembrar o que Paulo escreve à comunidade de Filipos, e que serve, com certeza, para o trabalho das equipes: “Se, pois, vale alguma consolação em Cristo, algum estímulo caridoso, alguma comunhão no Espírito, alguma ternura e compaixão, completai a minha alegria permanecendo unidos no mesmo pensar, no mesmo amor, no mesmo ânimo, no mesmo sentir. Não façais nada por espírito de competição, por vanglória; ao contrário, levados pela humildade, considerai uns aos outros superiores, não visando o próprio interesse mas o dos outros. Tende em vós os mesmos sentimentos que Cristo Jesus teve...” (Fl 2,1-5).

ENFIM ...

Para um bom “trabalho” em equipe, também não se deve ficar apenas no trabalho. “É preciso uma boa dose de amizade, de aprofundamento da fé e de oração em comum. De vez em quando, uma confraternização ou um piquenique... pode ajudar bastante. Há também equipes que fazem questão de participar do aniversário de cada um de seus membros... Tudo com simplicidade, é claro” (ibid., p. 58).

Dizer o nome dos leitores na liturgia?

A Constituição sobre a Liturgia, do Concílio Vaticano II, nos ensina que “é Cristo mesmo que fala quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja” (SC 7). Ele é o personagem central, o grande protagonista da ação litúrgica. “Na liturgia, Deus fala a seu povo. Cristo ainda anuncia o Evangelho” (SC 33). Assim, quando o(a) comentarista diz o nome da pessoa que vai proclamar a palavra de Deus na liturgia, acontece um “desvio de atenção”, mesmo que por um só instante, em relação àquele que deveria ser o personagem central e único do momento celebrativo.

O nome da pessoa tomou o lugar da Palavra... Aconteceu uma espécie de “ruído” teológico-litúrgico, uma desconcentração. Vale a pena lembrar a máxima de João Batista: “É necessário que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30). É necessário que a Palavra apareça, e quem a proclama diminua. A Palavra de Deus, acima de tudo, deve aparecer e crescer, em toda a sua pujança, no coração da assembléia litúrgica. E, se o comentarista fizer questão de dizer o nome do leitor ou da leitora, que o faça talvez antes de a missa começar, mas não em plena celebração da liturgia.

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