Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Cristianismo

 

org. por Ernesto Arosio

Descristianizada pelo comunismo, a sociedade russa sofreu, por longos anos,
a implacável perseguição materialista. Todavia, nem mesmo todo ateísmo oficial conseguiu cancelar a fé e a sede de Deus

queda do comunismo, nos anos 90, deixou, na Rússia, muitos problemas políticos, sociais e religiosos que ainda não foram resolvidos. Até parece que alguns pioraram. Neste especial, destacamos o aspecto religioso, visto que mais de setenta anos de regime comunista tentaram aniquilar qualquer religião, por meio de perseguições brutais, dos tristemente famosos gulags, de fome e trabalhos forçados e da destruição dos símbolos religiosos, e inculcar uma cultura materialista atéia na juventude. Será que o materialismo ateu conseguiu apagar o sentimento religioso no povo russo? O que está acontecendo hoje, depois do esfacelamento da URSS? O que ficou no povo após a longa e sangrenta perseguição? Reunindo várias fontes russas, procuramos apresentar a situação hodierna que demonstra que a alma do povo russo, apesar das enormes e novas dificuldades, é mais forte que qualquer ideologia materialista.

A situação religiosa

por Andrei S. Desnitskij

pós a queda do comunismo, a sociedade russa enfrenta fundamentalmente os mesmos desafios das sociedades ocidentais, embora com peculiaridades próprias. A questão religiosa russa não se limita somente ao povo russo, mas tem conseqüências que envolvem outras sociedades, como a ocidental, e a todas interessa conhecer e acompanhar sua reconstrução.


Líderes ortodoxos de vários países, em frente a Catedral de Saviour em Moscou. O segundo, à esquerda é o Arcebispo Chrysostomos de Chipre, no centro, o patriarca ortodoxo russo, Alexi II, ao seu lado, o Catholicos Garegin II, líder da igreja apostólica armênia

Em particular, a experiência atual da Rússia torna-se mais importante para as religiões ocidentais que estão envolvidas no diálogo com as tradicionais instituições religiosas russas e seu povo. Importante, sem dúvida, é o intercâmbio oficial de mensagens entre o Vaticano e o Patriarcado ortodoxo, entre os quais, recentemente, houve desentendimentos, mas a opinião pública e o futuro dos países se constroem entre as pessoas comuns e é o povo que vai aceitar ou repudiar as conseqüências de um eventual diálogo.

A religião, a cultura ancestral e as migrações

Apesar da independência, reconhecida internacionalmente por 14 países que faziam parte do território da ex-URSS (outros estão esperando ou lutam por sua independência), a federação russa permanece sempre a casa comum para mais de cem grupos étnicos, com diferentes culturas, línguas e religiões. Quando falamos, hoje, da Rússia, devemos lembrar que se trata de um país com grande pluralidade de nacionalidades e religiões. A coexistência histórica entre populações diferentes nem sempre foi pacífica, embora não comparável à veloz destruição das culturas indígenas que aconteceu nas Américas.


Bispos ortodoxos com o patriarca na nova catedral de Moscou

Por exemplo, em Dakota, nos Estados Unidos, o inglês é falado por todos, a maioria professa o protestantismo, e os descendentes dos índios, antigos moradores da região, praticamente desapareceram.

A Jacúcia, na Rússia, pelo contrário, é uma região autônoma, onde o presidente é um autóctone, a língua local é falada e ensinada nas escolas e estudada nas faculdades, e não é raro ver os xamãs das religiões tradicionais celebrando publicamente seus ritos e suas festividades.


Novy Arbat, um dos bairros modernos da capital

Outro aspecto a ser considerado, após a queda do comunismo, é que as grandes cidades estão continuamente recebendo migrantes provenientes de todos os cantos da ex-URSS, até das repúblicas que se tornaram independentes. Esses, em sua maioria, são muçulmanos. Nesse perfil de mistura de raças e religiões, Moscou pode ser comparada às grandes metrópoles da França, Itália e Inglaterra. As pessoas migram, integram-se na sociedade escolhida, mas não se assemelham aos vários grupos étnicos e religiosos ali presentes.

Isso foi e é uma constante na história da Rússia. Faz séculos que, em Moscou, existem bairros tártaros e de outras etnias: com o tempo e a expansão da cidade, esses bairros foram englobados, mas seus moradores não perderam sua origem tártara e permanecem tártaros, com sua cultura e costumes, até no vestuário. A cultura é a força das etnias. Esse quadro de permanência das antigas culturas torna-se ainda mais evidente nas regiões onde a civilização russa simplesmente se juntou às populações e religiões ali presentes, mas não se fundiu, como aconteceu no interior da Sibéria, onde os siberianos, antes, são siberianos e, depois, russos.


Procissão com a cruz ortodoxa

A religião, nesse contexto étnico e apesar da perseguição materialista, é ainda um dado importante na identidade étnica, também daqueles que não praticam a religião. Ter nascido russo, tártaro ou cossaco significa ser ortodoxo ou muçulmano para sempre. No âmbito popular, ainda que se fale de ortodoxia, islã ou budismo, descobre-se, na realidade, uma fé que é uma mistura de tradições folclóricas e superstições antigas, que o povo diz ser a religião dos ancestrais, e isso justifica o comportamento atual das várias etnias presentes na Rússia.

A cultura foi mais forte que o materialismo

A queda da ideologia revelou antigos segredos guardados pelo povo. Confirmou-se que, apesar da repressão, a influência do ateísmo oficial foi muito superficial. Um ancião tadjique disse: “É interessante como o povo esqueceu depressa os nomes de Marx e de Lenin, que foi obrigado a ouvir por várias décadas, e lembrou logo o nome de Deus, que era obrigado a esquecer”. Mas isso não é tudo. Após a onda de conversões, no começo dos anos 90, quando parecia que todos se tornariam crentes, ficou evidente que a capacidade das religiões tradicionais de acolher os neófitos e satisfazer suas exigências espirituais eram limitadas, assim como são limitadas e insuficientes as igrejas e as mesquitas que sobreviveram à destruição comunista.

Muitos dos convertidos limitam-se a um compromisso mínimo com a vida religiosa. Minha filha dizia: “Na minha turma, todos somos batizados, mas se admiram quando eu digo que freqüento a igreja”. Nessa situação, o sincretismo religioso tornou-se um dado comum e é a prática religiosa mais seguida, se assim podemos dizer. Na República da Buriátia, onde os moradores são, em sua maioria budistas, certa vez perguntei a uma senhora russa idosa – portanto culturalmente ortodoxa – por que abandonou a religião dos ancestrais.

“Não – respondeu a senhora – não deixaria por nada a religião. Simplesmente participo aqui porque o lama é uma pessoa afável, mas me encontro com o pope local e o xamã, porque ambos são pessoas muito gentis”. A senhora não achava nada contraditório em juntar as três religiões. Esse é o exemplo típico de tolerância que caracteriza hoje a Rússia. Pode parecer que essa coexistência pacífica das religiões tenha a ver ou se fundamente sobre uma idéia de solidariedade, mas, na realidade, é um verdadeiro sincretismo ou “mercado das religiões”.

As pessoas querem experimentar todos os produtos para verificar se são agradáveis e atraentes. Um fenômeno muito semelhante ao que acontece em outras partes do mundo, especialmente na América Latina.

Fé e cultura ancestral

No pólo oposto a esse “mercado das religiões”, encontra-se um cego tradicionalismo. A imagem da “fé dos ancestrais”, considerada suficiente e reconhecida como invariável, é um fato que pode parecer estranho, mas é muito difundido: em tempos de grandes mudanças, a religião tradicional é considerada a última praia por aqueles que buscam estabilidade emocional.

Somente que, durante os longos anos de perseguição, poucas pessoas e famílias conservaram fielmente a tradição e, mais ainda, as respostas do século passado não conseguem responder aos desafios do século 21. Em conseqüência, esses tradicionalistas, para não perderem sua pseudo-segurança interior e porque é mais fácil, negam todos os desafios modernos e não aceitam mudanças, até mesmo na sociedade.

Conflitos étnico-religiosos

Não deveria haver, na Rússia, conflitos entre as grandes religiões – ortodoxa, islâmica e budista –, mas esses conflitos eclodem quando a mudança de religião comporta ou é vista como mudança das tradições culturais, especialmente nas regiões rurais. É por isso que a “atividade missionária”, de qualquer tipo de religião ou seita, é considerada como um expansionismo e uma forma de agressão às culturas locais. Esse é um julgamento não objetivo, mas é compreensível num país em que religião e cultura tradicional formam o fundamento étnico e psicológico da identidade das etnias.

O surgimento de novas Igrejas e cultos é considerado mais uma derrota da Rússia, algo que desafia o orgulho nacional e a identidade do russo. As novas Igrejas, especialmente as seitas, não são o mesmo que a rede McDonald´s, mas se afirmaram quase com a mesma arrogância da mentalidade consumista americana e para muitos russos são bem semelhantes: uma intrusão na cultura tradicional. “Não adoram a Deus, mas o modo de viver americano” - dizia um pastor protestante inglês a respeito de seus fiéis russos numa cidade do interior.

Não é, portanto, a mudança da fé que cria conflitos, mas a mudança de cultura que uma conversão pode acarretar. Alguns anos atrás, um casal que tinha se convertido do islã ao protestantismo foi morto por uma massa enfurecida. Eles teriam sido respeitados, se tivessem se convertido a uma religião tradicional russa, mas a conversão ao protestantismo foi considerada um atentado à identidade do grupo étnico.

Circunstâncias como essas tornam problemática a partilha da fé entre a Rússia e o Ocidente e podem ajudar a entender as dificuldades de um diálogo ecumênico entre ortodoxia russa e as religiões ocidentais, até a católica, embora tendo a mesma raiz, isto é, o cristianismo do primeiro milênio.

Andrei S. Desnitskij é
biblista e professor de
língua grega e hebraica na Rússia

A espiritualidade, alma do povo russo

por Romeu Maggioni

e a Igreja russa sobreviveu a setenta anos de perseguição materialista foi devido a seus mártires e a sua forte espiritualidade, manifestada especialmente na liturgia. A liturgia ortodoxa russa teve uma importância fundamental para unir povos e culturas diferentes, ao longo dos séculos, e, na perseguição do materialismo comunista, sobreviveu na clandestinidade dos lares, com a veneração dos ícones e, apesar da destruição de igrejas e objetos de culto, mostrou-se capaz de preservar a vida religiosa do povo.

A liturgia é, sobretudo, a igreja, a Casa Santa de Deus, tanto as riquíssimas e imponentes catedrais, como as modestas igrejinhas espalhadas nas aldeias do imenso território russo. As igrejas não são uma finalidade em si mesmas, mas o lugar da união da terra com o céu, especialmente através de dois símbolos: a cúpula, com formato de chama que aponta para o céu, a morada de Deus, e a iconostase, ou seja, os painéis que representam os santos mediadores entre Deus e o povo, situados entre o presbitério e a nave da igreja ocupada pelos fiéis.

A liturgia ortodoxa

A liturgia ortodoxa é muito mais elaborada que a liturgia ocidental, sendo dotada abundantemente de textos bíblicos e espirituais dos santos e animada pelos temas da luz e da vida. Cada etnia elaborou seus cantos litúrgicos, mas está proibido qualquer tipo de instrumento musical porque – como dizem – somente a voz humana é digna de louvar a Deus e deve transformar a palavra num ato de amor que se eleva ao Senhor. As freqüentes ladainhas cantadas pelo diácono, em que se exalta a Deus, sua glória e poder e se pede pelas necessidades dos fiéis, são intercaladas com muitos “Kyrie eleison – Senhor, tende piedade” – e o povo acompanha cada invocação com uma inclinação profunda e um sinal da cruz.

O povo russo, mais místico que o ocidental, sente a presença de Deus de maneira quase tangível e, ao mesmo tempo, inacessível; por isso, o prostrar-se com o sinal da cruz quer lembrar a paternidade de Deus e a redenção de Cristo, da qual estamos sempre necessitados. A liturgia ortodoxa quer antecipar a experiência do reino futuro. A lembrança da primeira vinda de Cristo, celebrada com solenidade, e a esperança da segunda vinda não somente são elementos emotivos, mas uma maneira de tornar presente, de uma forma mística, o corpo glorioso de Cristo, através do Espírito Santo.


Um fiel ortodoxo de uniforme, durante uma celebração em honra ao czar Nicola II, venerado como santo

A liturgia russa, da qual, geralmente, o povo participa muito, procura mostrar o invisível através do visível, faz o fiel entrever profundamente o mistério que envolve a Trindade. Por esse motivo, exige sempre uma celebração solene com cantos, luzes, ícones, porque esses são os símbolos e a pré-degustação do mundo que há de vir.

O ano litúrgico tem seu ápice na Semana Santa e na Páscoa. Na sexta-feira, expõe-se, no meio da igreja, o ícone de Cristo morto que o povo venera com grande piedade e flores. À noite, lembra-se a procissão até sua sepultura e se entra no Sábado Santo com longas leituras bíblicas.

O anúncio da ressurreição é dado na celebração da noite de Páscoa, com aclamações do sacerdote e do povo, concluindo com o beijo da paz. A Eucaristia é o sacramento da unidade e, portanto, nas igrejas ortodoxas existe somente um altar e se celebra somente um culto eucarístico ao dia. O sentido global da liturgia eucarística é a memória de tudo o que Cristo fez para a salvação do povo: a cruz, o sepulcro, a ressurreição, a ascensão ao céu para junto do Pai e sua segunda vinda, para julgar todos.

A Liturgia da Missa tem todos as partes das missas ocidentais, mas com as características próprias dos ortodoxos. É celebrada com pão ázimo e os fiéis comungam sob as duas espécies, sendo que o pão e o vinho consagrados devem ser consumidos totalmente durante a celebração. Somente se conserva uma pequena parte para a comunhão dos enfermos. Não existe adoração do Santíssimo ou procissões fora da liturgia da missa. O batismo é feito por imersão e concomitante ao sacramento da crisma.

Para a confissão não existe um confessionário, mas o sacerdote e o penitente se colocam de pé, lado a lado, diante de um lugar onde há uma cruz e o Evangelho. O casamento religioso é celebrado com grande solenidade: o sacerdote põe coroas na cabeça dos nubentes que ainda bebem três vezes no cálice da comunhão. O matrimônio, teoricamente, é único e a Igreja ortodoxa aceita somente o divórcio em caso de infidelidade e não se favorecem os casamentos de viúvos. Em caso de um segundo matrimônio, é pedida ao responsável pela ruptura do anterior uma longa penitência. A liturgia ortodoxa, especialmente a russa, inspirou formas de vida monacais para ambos os sexos.

OS GULAGS SIBERIANOS

De um diário de uma visita à Sibéria

Andrea e Mariarosa Gatti

 


Ilha Solovki

“O monumento que quer lembrar à Rússia atual as vítimas da URSS comunista é uma enorme pedra trazida da ilha Solovki, do arquipélago Soloveckie, erigida em Moscou, diante do edifício da KGB, famosa e desumana polícia política.

A escolha dessa pedra não foi feita por acaso, mas simboliza o quanto a ilha está ligada ao início dos gulags siberianos da Rússia comunista. As ilhas Soloveckie são estupendas, no azul intenso do Mar do Norte, perto da região polar, e interessantes pela longa história da qual foram protagonistas.

Em Solovki, a principal, foi fundado, em 1430, um belíssimo mosteiro que se transformou num grande centro de cultura da vida russa. Ao longo dos séculos, foram construídas, ao seu redor, fortificações por ordem dos czares, para proteger o norte da Rússia das invasões e o mosteiro se transformou na maior fortaleza do país, resistindo aos assaltos dos invasores por vários anos. Sua tomada só foi possível com a ajuda de um traidor. Muitos monges-soldado foram mortos naquela ocasião.


Monumento lembrando as vítimas dos gulags siberianos

Os lagers – ou gulags – da ilha Solovki foram implantados nos anos 20, para receber prisioneiros russos especiais. Eles não eram opositores do partido comunista ou criminosos comuns, mas pessoas que, por origem, posição social e cultura, eram estranhas ao poder operário e à nova Rússia. Mais tarde, esses gulags foram cada vez mais organizados e se tornaram modelos de outros gulags que se espalharam por toda a Sibéria. Eram tão pontualmente organizados que, no fim dos anos 20, Máximo Gorki visitou a ilha Solovki e defendeu a utilidade social dos gulags e a capacidade reeducativa dos prisioneiros.

A visita do famoso escritor foi divulgada de tal forma na Rússia e no mundo inteiro que até a Cruz Vermelha Internacional acreditou no que dizia o ilustre escritor, cuja fotografia, no meio dos policiais da KGB, circulou pelo mundo afora. A realidade, porém, era outra: já no começo dos anos 30, os gulags das ilhas e da Sibéria tinham mais de 70 mil prisioneiros e, a partir de 1937, começaram os fuzilamentos em massa. Recentemente foram descobertas covas comuns, com mais de três mil ossadas em cada uma.

Em 1937, as ilhas Soloveckie transformaram-se, definitivamente, numa penitenciária de regime duro. Nos anos seguintes, a maioria dos prisioneiros foi transferida para o continente, para ser utilizada como mão-de-obra gratuita (escrava) nos canteiros das grandes obras do regime socialista e em vista da guerra que estava eclodindo, 1939-1945. As ilhas permanecem na consciência dos russos como o símbolo obscuro dos massacres praticados pelo comunismo. O guia russo da nossa comitiva pediu que não esquecêssemos o que tínhamos visto”. O gulag da ilha Solovki foi recentemente transformado em museu aberto.

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