Revista "MUNDO e MISSÃO"

Religião - Islamismo

Nigéria: a sharia tenta dividir o país

Hélio Pedroso

Uma população de 115 milhões de habitantes, uma produção de petróleo que classifica o país no sexto lugar entre os grandes produtores e uma imensa reserva de divisas fariam da Nigéria uma nação invejáve,l mas...

Os problemas começam onde deveria estar sua riqueza: são 250 etnias entre os grupos hausa, yoruba, ibo e fulani. Mantém-se um delicado equilíbrio entre muçulmanos (47%), instalados principalmente no norte e no oeste, e cristãos (35%), no sul e no leste do país, dos quais 25% são católicos. O resto da população ainda segue os cultos animistas tradicionais.
Há alguns anos, a convivência entre as duas religiões está se tornando difícil, porque alguns estados de maioria muçulmana impuseram a sharia, apesar de a constituição estabelecer que "o governo não pode adotar nenhum credo como religião de estado". Essa afirmação constitucional, que dava uma certa tranqüilidade aos cristãos, nunca foi aceita pelos muçulmanos mais fanáticos que gostariam que estado e religião fossem um só. Além das tentativas de islamizar o país por via legal, os muçulmanos, com dinheiro de proveniência duvidosa, estavam penetrando nas aldeias animistas, construindo escolas e mesquitas, comprando terrenos e esposas, e subornando os chefes das aldeias, forçando-os a se converterem ao islã.
A revolta começou quando, no fim de fevereiro, governadores de estados do norte - como Zamfara, Sokoto e Niger - quiseram introduzir a sharia come lei fundamental. O protesto dos não muçulmanos terminou numa revolta que causou destruição e centenas de mortos. Embora tenha sido dito que a sharia não obrigaria os não muçulmanos, estes não confiam nos governos estaduais e, particularmente, nos poderes inferiores que podem aplicar essa lei ao seu bel prazer. Outra motivo é que os benefícios da lei seriam somente para os muçulmanos e as restrições, para todos.
Durante a revolta, os soldados desses governos estaduais foram acusados de defender os muçulmanos, o que agravou ainda mais a situação. O presidente do governo central, Obasanjo, que é cristão, no começo das desordens, não tomou uma posição firme e só se pronunciou, defendendo que a constituição federal proíbe adotar uma religião oficial. Isso irritou ainda mais os não muçulmanos que, nos estados do sul, tomaram partido dos cristãos massacrados no norte e partiram para a vingança. Resultado: mais de uma centena de mortos.

Causas

Existem fortes indícios de que, atrás dessas tentativas de impor a lei islâmica na Nigéria, há alguém interessado em seu petróleo e parece que este alguém é a Arábia Saudita. Não existem documentos, mas seguras suspeitas de uma longa penetração no país com ajuda financeira saudita e líbica, através de grupos islâmicos que se comprometem a introduzir a sharia nos próprios países. Quem denuncia esta possibilidade é o estudioso jesuíta egípcio, Samir Khalil Samir, o qual faz notar a implantação de múltiplas escolas islâmicas, centros de culturas e propaganda, financiamento de jornais que defendem o islamismo e uma significativa penetração nas universidades, com oferta de bolsas para estudar em países islâmicos.
Pe. Samir critica justamente esses projetos pseudo-humanitários, alertando que a sharia poderia ser aceita pelos muçulmanos, mas não pode ser imposta, ainda mais porque, em seu conteúdo, há artigos que não respeitam os direitos humanos, como a própria liberdade de religião. O estudioso chama ainda a atenção internacional sobre estas tentativas de uma progressiva conquista da África para islamizar o poder. Nesse plano, não está excluída a violência ou fomentar as lutas entre etnias, como aconteceu na Nigéria.

O desfecho

O perigo que a guerra entre as etnias se alastrasse pelo país inteiro fez com que Obasanjo acordasse e revogasse a sharia nos estado de Zamfara, Niger e Sokoto. Os governadores de outros estados, como Kano, Yobe e Kaduna, onde a sharia estava já em vigor, aceitaram suspendê-la em obediência à lei maior da constituição. Esta poderia ser considerada uma vitória dos não muçulmanos, mas o arcebispo de Abuja, dom John O. Onaiyekan, alerta que não é uma vitória dos cristãos, mas do povo nigeriano e dos muçulmanos moderados, que são maioria e não querem a sharia como lei.
Sempre conforme a declaração do bispo, é a derrota daqueles que, financiando no exterior, queriam uma Nigéria, caótica e ingovernável, nas mãos dos fundamentalistas.
Agora, trata-se de pacificar os ânimos, em particular nas regiões onde cristãos e muçulmanos vivem e trabalham juntos.
Em algumas cidades e aldeias, já se organizaram grupos pela concórdia, formados por pessoas de todas as religiões.

Será que é possível chegar a uma convivência social entre as religiões?

Ernesto Arosio

É uma pergunta crucial, em vista dos conflitos que surgem em vários lugares do mundo. Em janeiro passado, por ocasião dos trabalhos do jubileu, foi realizado em Palermo, na Itália, um simpósio sobre religiões, diálogo, liberdade, fé e direitos humanos.
Apresentamos aqui algumas das propostas feitas por especialistas. O professor de filosofia do direito, Francesco Viola, insiste que, somente no mútuo conhecimento, poderão ser superadas as divisões e que os direitos humanos devem ser interpretados como direitos do gênero humano e não de grupos ou de indivíduos. Maurice Borrmans, docente de islamismo no Pontifício Instituto dos Estudos Árabo-Islâmicos, também insiste sobre os direitos humanos como sendo a plataforma essencial de um diálogo aprofundado entre as religiões.
A dificuldade, porém, é como conciliar direitos humanos e liberdade religiosa, o que seria possível através de uma distinção entre religião e direito, entre ética e lei, entre os princípios gerais da sharia e suas aplicações práticas.

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