Revista "MUNDO e MISSÃO"

Indígenas

A dança-luta brasileira

Edison Barbieri

De meio de defesa
dos escravos à arte e
instrumento de cidadania

Originada no final do século 17 e início do 18, com seu auge na segunda metade do século 19, a capoeira é uma arte “marcial” brasileira, de origem africana, uma dança-luta, que foi criada e desenvolvida pelos negros escravizados, inspirada pela sede de liberdade e justiça social.

Logo após a libertação dos escravos, o negro brasileiro que trabalhava na fazenda, desempregado, é jogado na mais absoluta miséria (fato que ainda hoje é fácil de se presenciar nas favelas), pois não foi incorporado à vida da cidade nem como comerciante nem como operário. Com seu êxodo para as regiões urbanas em busca da sobrevivência, o ex-escravo, que sabia capoeira, se tornou o malandro perigoso das ruas do Rio de Janeiro, servindo muitas vezes de capanga para alguns coronéis. Por isso, a prática dessa dança foi proibida em todo o território nacional, até que o presidente Getúlio Vargas decretou sua legalização nos anos 30.

O jogo de capoeira primitivo, lúdico, proscrito pela classe dominante, foi modificado na década de 30 por Manoel dos Reis Machado, o famoso mestre Bimba, que procurou escapar ao enquadramento legal, para servir de fundamento a um sistema de defesa pessoal, assumindo a forma de luta e recebendo a denominação de capoeira regional. A maioria dos mestres permaneceu, entretanto, fiel aos ritos antigos sob a liderança de Vicente Ferreira Pastinha, mestre Pastinha. Eles se reuniram e fundaram o Centro Esportivo de Capoeira Angola, origem da atual denominação de capoeira angola e de angoleiros. Estas duas formas, inicialmente limitadas à Bahia, difundiram-se pelo País inteiro.

Capoeira Cordão de Ouro - São PauloA capoeira na época da escravidão preparava o negro para o desigual combate com os capangas dos fazendeiros que utilizavam mão-de-obra escrava. Os capangas eram geralmente homens rudes e bem armados.

Para treinar, sem chamar a atenção dos fazendeiros e dos capangas, os escravos incorporaram instrumentos musicais, como o berimbau, oriundo do povo banto, e outros, de forma a enganar o feitor, pois com a música e os movimentos ritmados, o capataz pensava que os negros estavam dançando.

Uma arte que se fecundou e cresceu lutando pela vida, a capoeira é luta e defesa pessoal que, quando praticada, combate os instintos agressivos, transformando-os em forma lúdica, sem prejudicar as outras pessoas.

A capoeira é um processo dinâmico, coreográfico, desenvolvido por dois parceiros, caracterizado pela associação de movimentos rituais, executados em ritmo ijexá, que é um ramo da nação nagô, regido pelo toque do berimbau, simulando intenções de ataque, defesa e esquiva, ao mesmo tempo que exibe habilidade, força e autoconfiança, em colaboração com o parceiro do jogo, pretendendo cada qual demonstrar sua superioridade sobre o outro. A coreografia desenvolve-se a partir de um movimento básico de-nominado de gingado. A capoeira dá liberdade de criação, mas conserva a estrita obediência aos rituais, a preservação das tradições, o culto dos antepassados e o respeito aos “mais velhos”.

A partir do gingado, o capoeira realiza movimentos, manobras, exercícios, evoluções conforme o ritmo, o objetivo ou o contexto a partir de cada um dos segmentos e das múltiplas posturas do corpo. Mas sempre os movimentos são ritmados, obedecendo ao toque do berimbau, atabaque, pandeiro e agogô. No início do jogo da capoeira, os praticantes reúnem-se em uma formação de roda e começam a cantar as “ladainhas” acompanhadas pelo toque dos instrumentos.

Hoje a capoeira está inserida em outra realidade social, muito diferente da sua origem; está preocupada com sua manifestação como arte em geral: na dança, na música, no teatro e cinema, nas escolas do ensino fundamental e médio, também nas Universidades, onde é objetivo de estudos em muitos cursos de pós-graduação. Saiu também do Brasil e está em muitos países da Europa e Estados Unidos.

Exemplo dessa nova realidade social é a utilização da capoeira pelo mestre Alcides de Lima, como instrumento de socialização e cidadania para crianças carentes. O mestre Alcides trabalha com alunos de Universidade, colégio e meninos de comunidades carentes e hoje também com pessoas da terceira idade. Nas suas rodas, além da dança, teatro, ritmo que a capoeira por si só traz, também incentiva a desinibição e discute as dificuldades do dia-a-dia que os alunos encontram. O mestre ensina todas as técnicas, nunca enfocando ataque e defesa, e sim a expressão corporal; trabalha muito o respeito pelo outro, para que não ocorra a violência. Sempre enfatiza que o capoeira está jogando com o outro, para o outro e não contra o outro. Segundo o mestre, “a capoeira hoje, dentro da nossa filosofia, é usada como uma ferramenta poderosa de ensino e aprendizagem, transmitindo a jovens e adultos de todas as camadas e extratos sociais a identidade social e cultural brasileira”.

Os discípulos do mestre Alcides também vão pelo mesmo caminho. O engenheiro químico Alfredo Antônio Zito, de 35 anos, que começou há dez anos a praticar a capoeira para combater o estresse, hoje a ensina a meninos carentes. No seu trabalho com as crianças, ele utiliza o contraponto da malandragem da capoeira com a cultura da cidadania. Zito tenta desenvolver a auto-es-tima da criança pobre, reforçando, desde que possível, a riqueza da cultura negra e sempre enfatizando a não violência.

O professor de história Carlos Alberto Oliveira, de 31 anos, com 17 de capoeira, outro discípulo do mestre Alcides, trabalha voluntariamente com menores infratores da Febem de Tatuapé, São Paulo. Seu lema nesta instituição é incluir os meninos na não violência. O professor trabalha com o menor os valores positivos da capoeira, a disciplina, debate questões de vida cotidiana, mostra o lado negativo da violência. Segundo Carlos, para entrar na roda de capoeira, é necessário que a pessoa saiba entrar e sair, pois existem certas re-gras de conduta, e isso faz com que haja um respeito na roda, visto que tem que respeitar a batida do berimbau e os colegas. O professor diz que “os que participam das rodas criam uma unidade no grupo. Os meninos acreditam que a saída é individual, na capoeira não é, e sim em grupo”. Para o professor de história, o “sistema exclui e nosso trabalho tenta incluir os excluídos”.

Mareia Quintero é musicista de Porto Rico. Há 7 anos, a música da capoeira chamou sua atenção e desde então tornou-se mais uma aluna do mestre Alcides. Para Mareia, a capoeira criou um vínculo muito forte com o Brasil, a ponto de levá-la para Porto Rico, onde hoje é utilizada em grupos de teatro e com jovens drogados.

Ritmos utilizados numa roda de capoeira

Capoeira Cordão de Ouro - São PauloAngola – toque mais lento, comanda o jogo de angola.
São Bento grande de angola – toque lento no mesmo ritmo do toque de angola.
São Bento grande regional – toque rápido, quando se joga utiliza a guarda alta.
Cavalaria – toque de aviso: na época que a capoeira era proibida, avisava o capoeira que a polícia montada estava chegando.
Iúna – toque que imita o canto da iúna, só é jogado por professor e mestre. Neste ritmo é onde o mestre mostra sua técnica.

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