Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Mundo - África

Com o povo de Angola

Maria Inês Ribeiro

Quando me sugeriram publicar algo sobre minha experiência como missionária em Angola, entusiasmei-me, não tanto por contar sobre minha vida e meu trabalho lá - que, aliás, me marcou muito - mas por ser uma oportunidade de falar desse país amado e do querido povo angolano. A realidade desta sofrida nação é pouco conhecida: as referências nas manchetes internacionais são raras e superficiais. Foi, portanto, por amor a esse povo irmão e também interessada em ajudar a buscar uma solução que resolvi partilhar com os leitores de Mundo e Missão algumas reflexões.

A realidade após o conflito

A guerra instalou-se em Angola em 1961, quando se iniciaram os movimentos pela independência do país. Portugal "retirou-se" em 1975 e um grupo de orientação marxista, o MPLA, apoderou-se do poder que mantém até hoje. Começou aí a guerra civil, a "guerra do mato", que foi até 1991. O outro grupo, UNITA, contrário à forma como se deu a "independência" é o "inimigo" do governo. Angola tornou-se assim palco de uma guerra cruel. O MPLA teve o apoio da ex-União Soviética e de Cuba e a UNITA, dos Estados Unidos. Em 1992, houve eleições nacionais e a UNITA, que perdeu, recomeçou a guerra, atingindo todo o país. As nossas irmãs, que vivem em Huambo, sofreram muito com a chamada "guerra dos cinqüenta e cinco dias".

O povo angolano

Como esse povo consegue viver? Um escritor disse: "Como podemos ser normais se, todos os dias, fechamos os olhos para não ver as cenas de horror que os nossos órgãos de informação nos mostram? Não só de mortos e destruição de cidades e pontes, mas também e principalmente, de crianças sem amparo perdendo-se dos pais, vagueando pelas ruas, espectros esqueléticos de mãos estendidas. Os mutilados que, nas avenidas das nossas cidades, se humilham à esmola de motoristas indiferentes. A riqueza ostensiva de gente vinda não se sabe de onde, de um dia para o outro, enriquecida pelos negócios que a guerra ou seus sucedâneos suscitam... E nós, para sobrevivermos, temos de montar uma carapaça de indiferença, olhar para o lado, tapar os ouvidos. E cantar e dançar, para esquecer... ou beber aos cântaros. Não, não pode haver gente normal neste país...".
Em 1994, foi assinado um novo tratado de paz, porém durou muito pouco e as tensões continuaram. Em fins de 1997, os conflitos se intensificaram e, nos últimos dois anos, a situação de insegurança e desequilíbrio social são insuportáveis. Luta-se basicamente pelo poder. O governo tenta manter o controle do país, mas é impossível. A UNITA, espalhada por todos os cantos, continua a exigir sua parte no poder (não serviço ao povo).
Quem paga a guerra de Angola? Os recursos extraídos do solo, que seriam suficientes para fazer dela um país auto-suficiente, livre da fome e da miséria. A UNITA financia a sua guerra com a venda clandestina de diamantes e estima-se que já tenha faturado cerca de US$ 3,7 bilhões, desde 1992. Já o MPLA usa os recursos da exportação de petróleo (US$ 3,5 bilhões anuais) para custear a guerra.

Os missionários:
uma presença solidária

Que fazer nesse emaranhado? Muitas vezes, em momentos de íntima comunhão com Deus, só podia concluir que, sem uma profunda fé e grande fortaleza interior, é impossível ser missionária nestas terras. E, sem dúvida, o Senhor concede esses dons: quantos missionários estão não só em Angola, mas também em outras situações igualmente complexas e desafiadoras?
Nossa congregação - Irmãs Mensageiras do Amor Divino - está em Angola, desde 1982. Como congregação nascida em terras brasileiras, estamos "dando da nossa pobreza", conforme o apelo dos bispos da América Latina, assumido por nossa fundadora, Felicy Braga. Vivemos numa das áreas mais afetadas pela guerra: Huambo e Kahala, mas já estivemos no Kwito Bié, de onde saímos em 1993, em conseqüência da guerra. Na época, havia onze comunidades religiosas e nossa casa foi a primeira a ser abandonada; hoje, só restam escombros e nem nós nem a diocese conseguimos recuperá-la. As irmãs atuam também estão nas missões de Menongue e Luanda, dedicando-se à evangelização e promoção humana das comunidades e aldeias. Na capital, iniciaram, junto à Caritas, o projeto "Socorro à vida", com o apoio da Pastoral da Criança do Brasil.
Num país de interminável guerra, a missionária é mais uma presença solidária, pois, muitas vezes, nada consegue fazer, a não ser estar ao lado do povo, sofrendo com ele. Uma vez, ao receber a informação dos militares de que a cidade ia ser atacada, o povo, agitado, começou a se preparar para a retirada, sem saber para onde ir. Uma professora nos procurou para saber se as irmãs também sairiam. A respostas das irmãs foi "ficamos com o povo" e ela, toda emocionada, chorou e saiu para divulgar a "boa nova".
Os missionários em Angola são para o povo um sinal de esperança e segurança. Apesar da constante instabilidade, mantêm, com muita garra, sua missão pastoral, os ambulatórios, os postos de saúde, as cozinhas comunitárias, escolas, lares para órfãos e deslocados e muito mais. Nossas irmãs da Kahala dão, diariamente, refeição a 500-600 refugiados; isso graças também ao Programa de Alimentação Mundial - PAM - que, como muitas outras organizações, procura minorar a situação do povo.
Numa guerra que já causou 1,5 milhão de mortos, três milhões de refugiados e 200 mil mutilados, por causa de minas, fica o desafio: o que fazer?
Cumpre-nos, a convite do papa (bem claro em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz), "assumir nossa missão evangelizadora e trabalhar para a paz" (cf nº20). Aos que lá estão em Angola e a cada um de nós aqui no Brasil, cabe-nos o compromisso com o projeto de Jesus: abraçar sua causa, levar avante o seu Evangelho, e para que haja paz, é preciso rezar todos os dias...

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IRMÃS MENSAGEIRAS DO AMOR DIVINO - MAD

A Congregação das Irmãs Mensageiras surgiu em Aparecida, à sombra do santuário mariano, quando três moças, em busca da perfeição e dedicação total à mensagem de Cristo no serviço ao próximo, Felicy Braga, Rosária de Souza e Terezinha de Jesus Campos, se encontraram com pe. Eduardo H. Moriarty, redentorista americano. A partir desses encontros, ele se tornou o orientador e o fundador da nova congregação que se formava no espírito de Santo Afonso, a primeira superiora geral foi Felicy Braga. Canonicamente, a Congregação foi erigida em 1971, assumindo o lema de irradiar o Amor Divino.
O carisma da Congregação das Mensageiras do Amor Divino é testemunhar esse amor através de retiros, catequeses, missões populares, e promoção social onde forem chamadas pela Divina Providência.

Maiores informações:
Mensageiras do Amor Divino
Rua Barão do Rio Branco, 300
12.570-000 - APARECIDA/SP
Tel.: (0xx12) 565.3700

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