Revista "MUNDO e MISSÃO"

Igreja no Brasil


Pe. Darci Alves no abraço da paz na próquia de Mansoa - Guiné Bissau

Há 1556 brasileiros e brasileiras que atuam no exterior em frentes missionárias de evangelização ou de promoção humana, ligadas a obras e projetos da Igreja católica.

Este é o primeiro dado de uma pesquisa realizada pelo Conselho Missionário Nacional (COMINA) durante o ano de 2001, através de um contato persistente junto a quase 1000 entidades, entre congregações, projetos missionários e dioceses.

O trabalho direto de levantamento dos dados foi feito por Cristina Maria Galvão, contratada pelo COMINA, e teve a supervisão técnica de pe. Estevão Raschietti, missionário xaveriano.

O incentivo do presidente do COMINA, dom Erwin Krautler, bispo do Xingu, como de toda a equipe executiva, foi de constante apoio ao projeto.

A missão com rosto feminino

Os sujeitos da missão além-fronteiras têm um rosto bem preciso: 80,21% são forças femininas, ou seja, 1248 missionárias num total de 1556 pessoas. O contingente masculino é somente 19,79%, isto é, 308 missionários.

O que já se pensava há anos foi confirmado com a pesquisa: o rosto da missão além-fronteiras é predominantemente feminino, formado particularmente por religiosas de congregação. São as congregações religiosas femininas que, com ousadia, carregam a missão universal da Igreja do Brasil. Dos homens, quase a totalidade é proveniente de congregações religiosas masculinas.

Mulheres e homens ligados às congregações catalisam 98,5% das forças missionárias. O que significa uma presença missionária feminina assim tão maciça ? A "missão feminina" tem um rosto típico? Essas são perguntas que devem ser feitas, até mesmo no momento de preparação das missionárias.

A missão além-fronteiras sem leigos

Onde estão os leigos na missão além-fronteiras? Por que são tão poucos ? Nos dados tabulados, os leigos são 0,5%. De acordo com a estatística, um percentual desta grandeza é destituído de valor. No momento de montar as tabelas, até graficamente desaparecem.


Irmã Rosa trabalhando na alfabetização de mulheres

O Concílio Vaticano II colocou no âmago da Igreja a questão missionária. A missão em si foi tirada das mãos de alguns especialistas para tornar-se propriedade de todo o povo de Deus.

Todo cristão, como batizado, é missionário e toda Igreja, conseqüentemente, é missionária. Tudo isso, genericamente, foi assimilado. Concretamente, porém, as coisas não se encaixam. Há ainda uma "minoria" que, por tantos motivos, continua retendo o processo, talvez não sejam mais especificamente as congregações missionárias, mas, como no caso do Brasil, são as congregações religiosas.

O apelo para que os leigos tornem-se também protagonistas da missão além-fronteira foi lançado pela CNBB nas suas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (n.º 247), mas... ainda não foi assimilado e concretizado. As dificuldades começam a surgir a partir do momento em que alguém expressa a vontade de ir além-fronteira. Não há organizações que ajudem a discernir e a preparar essas forças. A problemática econômica tem seu peso.

Quem paga a passagem? Como fica a ajuda de custo? Quem paga o seguro saúde? Quem acolhe esses missionários? E se ficarem doentes, quem se responsabiliza na volta para o Brasil? Todas essas razões são sempre colocadas como dificuldades lógicas e reais para os leigos que se sentem chamados a irem além-fronteira.

Os dados demonstram, sem equívocos, que, para além das razões, os leigos não existem como missionários abertos à universalidade. O discurso da Igreja é bonito, na prática, é vencido pelas dificuldades.

Talvez seja na linha da "parceria" que deva ser encaminhado o envio de leigos além-fronteira. Parceria com as congregações religiosas, pois são estas que mais enviam forças missionárias. Poderia ser uma parceria na forma de associações mistas, apesar das dificuldades jurídicas, ou de associações ligadas ao carisma das congregações. Talvez aqui seja possível começar um processo que viabilize o caminho dos leigos para a missão além-fronteira.

O clero diocesano procurando caminhos para a missão

Do clero diocesano, 1% está na missão além-fronteira. São poucos, na verdade. Quase insignificantes do ponto de vista estatístico. Há padres nos projetos das Igrejas Irmãs do Brasil, mas eles estão quase ausentes dos projetos para além do Brasil. Os assim chamados "fidei-donum" (padres diocesanos para as missões), cujo crescimento e presença são notáveis em países europeus, são quase inexistentes no Brasil. Há somente um bispo brasileiro nas missões, como titular da diocese de Bafatá na Guiné Bissau, dom Pedro Zilli, do Pime. Parece que a mentalidade universal não deslanchou. Os leigos queixam-se que o clero não avança na animação missionária.


Irmã Rosângela ajuda uma criança com problemas de deficiência física na Guiné Bissau

Quando se fala de um maior envolvimento do clero, fala-se sempre que é preciso começar nos seminários, na formação dos padres. Faltam professores e disciplinas missiológicas nos seminários. Falta também uma sensibilidade maior dos bispos que não incentivam. A verdade é que há apenas 11 padres diocesanos na missão além-fronteiras.

O texto das Diretrizes Gerais da CNBB (199-2002), ao falar da animação missionária, comenta que "a segunda área diz respeito ao próprio perfil dos missionários. É necessário um intenso trabalho nos presbitérios e nos seminários para ajudar os presbíteros diocesanos a descobrirem a Missão além-fronteiras..." (n.248)

Estado de origem das forças missionárias

O Rio Grande do Sul é o Estado brasileiro que envia mais missionários, 377 pessoas, ou seja, 24,23%. Um quarto das missionárias e missionários brasileiros pertence a este Estado. Seguem, depois, Minas Gerais com 13,30% (207), São Paulo com 12,53% (195), Santa Catarina com 12,34% (192), Paraná com 10,99% (171), Espírito Santo com 3,53% (55). Todos esses Estados, localizados no Sul e no Leste do Brasil, perfazem 76,92% de todos os missionários além-fronteiras.

Os outros Estados do Centro, Norte e Nordeste, excetuados 2,44% em branco, têm 20,74%, destacando-se a Bahia com 2,96% (46), o Ceará com 2,19% (34), o Maranhão com 1,86% (29). O Estado de Rio de Janeiro, curiosamente, distancia-se dos Estados do Sul com 1,86% (29) dos missionários brasileiros além-fronteiras.

As dioceses que concentram o maior número de missionárias e missionários brasileiros além-fronteiras são também as do Sul do Brasil. Entre as primeiras 21 dioceses, 7 são do Rio Grande do Sul, 6 são de Santa Catarina, 4 de Minas Gerais, 2 do Paraná, 1 de São Paulo e 1 do Espírito Santo. As primeiras cinco dioceses destacam a hegemonia do Rio Grande do Sul: Caxias do Sul (93), Santa Cruz do Sul (65), Passo Fundo (55), Rio do Sul-SC (38) e Erexim (34).

O Sul do Brasil e a questão missionária

Quais os fatores que permitem explicar o grande número de missionários provenientes do Sul do Brasil? Uma série de fatores torna esta área extremamente favorável para a origem dos missionários além-fronteiras. No Rio Grande do Sul e outros Estados encontram-se o maior número de religiosas e religiosos. Aqui se concentraram as congregações que vieram de outros países e encontraram um terreno favorável para a sua expansão. Algumas congregações, tipicamente brasileiras, nasceram e desenvolveram-se nessas áreas.

Os recursos humanos e econômicos possibilitam, ainda hoje, um maior empenho nesse empreendimento. A mentalidade dos imigrantes europeus, antes, e, depois, de outros Estados do Brasil, carregam dentro de si o sentido da mudança e do deslocamento. É preciso também entender o estilo inovador e criativo de fazer acontecer a animação missionária. Há projetos, como no Rio Grande do Sul, em que todas as dioceses assumiram um trabalho missionário em Moçambique, preparando, sustentando e enviando os próprios missionários.

Uma campanha como "Cem mil bíblias para Moçambique" podia acontecer sobre uma base já aberta à universalidade. Também os Estados de Santa Catarina e Paraná mantêm projetos pioneiros nas áreas africanas, enviando os próprios missionários. São Paulo, mesmo tendo uma abertura de intercâmbio com a Amazônia, ainda não desenvolveu um próprio projeto além-fronteiras.

O Nordeste e o Norte: desvendando caminhos

Dos missionários além-fronteiras, 20,74% são originários do Centro, Norte e Nordeste. Representam áreas em situação de emergência pelos precários recursos e pela pobreza, às vezes, extrema. A vivacidade dos agentes de pastoral permitiu dar um passo qualitativo na questão missionária.

É o sentido de "dar da própria pobreza" ou a consciência de que "uma Igreja amadurece quando se abre à missão" que permite explicar esse "salto qualitativo". A Bahia, o Ceará, Maranhão, o Piauí e outros se abrem gradualmente para a missão além-fronteiras. Cursos específicos estão sendo oferecidos em Teresina para os missionários do Piauí e do Maranhão.

Alguns desses missionários estão, há alguns anos, participando do projeto para Moçambique, sob incentivo dos missionários combonianos. Em Belém - PA, o Instituto de Pastoral Regional prepara missionários e tem cursos de primeira qualidade.

A maciça presença na África e nas Américas

A África e as Américas representam as áreas geográficas que mais absorvem os missionários brasileiros além-fronteiras. O continente americano absorve 39,53% dos 1556 (100%) missionários (América Central 7,65%, América do Norte 3,15% e América do Sul 28,73%). A África tem 35,41% dos missionários. Em valores absolutos, são 615 missionários nas Américas e 551 na África, perfazendo um total de 1166. Os 25,06% restantes, 390 missionários, estão nos outros continentes, incluindo a Europa, com 19,02%. A Ásia e a Oceania absorvem, em números absolutos, 94 missionários e em relativos 6,04%. Pode-se dizer que o Oriente é o continente quase que esquecido pela Igreja Missionária do Brasil.

A herança africana

O grande número de missionários na África (35,41%) pode ser explicado por vários fatores, entre os quais, a "dívida histórica" com relação aos escravos negros trazidos para o Brasil, a "facilidade lingüística e cultural" em relação aos países africanos que foram colonizados pelos portugueses - Moçambique, Angola e Guiné Bissau acolhem 351 (63,7%) missionários brasileiros, sobre um total de 551 - e também a extrema pobreza de ingentes populações africanas que identificam a missão como um "serviço" e uma "presença" no meio dos mais pobres.

Esta última consideração direciona a atividade missionária para uma perspectiva: o compromisso solidário com os pobres mais pobres. Sobretudo nos dias de hoje, a África é um continente esquecido pelas grandes potencias ocidentais. Guerras tribais (herança do colonialismo) e doenças endêmicas estão dizimando suas populações. Somente os missionários e as missionárias acreditam na vida e na ressurreição do continente.

Estes e outros fatores parecem incentivar o caminho da missão para a África. No entanto, é importante avaliar profundamente e dar o devido peso a cada uma dessas variáveis.

A "pátria grande"

As três Américas (sul, centro e norte) recebem o maior contingente dos missionários: 615 brasileiros, ou seja, 39,53%.

Na América do Norte (Estados Unidos 40 e Canadá 09), a presença de missionários brasileiros restringe-se ao serviço dos emigrantes brasileiros e hispânicos (40%). Os missionários concentram-se, sobretudo, nas áreas de Miami, Nova York (EUA) e Toronto (Canadá), onde é significativa a presença de brasileiros. Nesses países, a Pastoral para os Brasileiros no Exterior é particularmente ativa. Outros missionários estão a serviço das congregações nesses países.

A América Central e do Sul absorvem, pode-se dizer, a maior força missionária brasileira além-fronteiras: 566 missionários, isto é, 36,38% das forças. Diferentes motivos podem explicar essa presença. Antes de tudo, a proximidade geográfica permite um intercâmbio rápido entre as forças das congregações religiosas.

As viagens e os contatos permitem que não se separe o grupo das províncias, o contingente que está fora e o grupo que está no Brasil. É fácil trocar o pessoal e permite uma abertura maior também aos grupos sedimentados. Dos primeiros 20 países com presença missionária brasileira, a Bolívia acolhe 104 missionários (8,59%), a Argentina 82 (6,77%, que representa o mesmo número de todos os missionários na Ásia), o Paraguai 74 (6,11%) e o Chile 59 (4,87%). Em síntese, considerando os 20 primeiros países na escala de presença de missionários brasileiros, a América do Sul e a América Central acolhem 481 pessoas (até Guatemala). É uma presença, sem dúvida, considerável.

Também os fatores lingüísticos e culturais não podem ser descartados. Há uma proximidade lingüística entre o português e o espanhol, este último falado quase globalmente nos países latino-americanos. A questão cultural aproxima também os universos simbólicos dos países. A América Central e a América Latina foram colonizadas pelos impérios hispânico e português.

O tipo de cultura popular, a religiosidade, a influência indígena e dos negros escravos perpassam a quase totalidade das áreas. É relativamente mais fácil uma aproximação a culturas homogêneas. O missionário trabalha mais com o eixo da continuidade e menos com o da diversidade-ruptura.

Um fator que não pode também ser descartado é o símbolo da pátria grande que já estava nos sonhos de Bolívar e de outros que vislumbravam uma grande unidade latino-americana. A partilha dos grandes ideais de uma solidariedade continental pode representar um grande imaginário também para as forças missionárias.

O Oriente esquecido

A Ásia e a Oceania representam os continentes quase que completamente esquecidos pela Igreja Missionária do Brasil. Somente 94 missionários (82 na Ásia e 12 na Oceania), ou seja, 6,04% (5,27% na Ásia e 0,77% na Oceania) encontram-se nesses territórios. As Filipinas estão numa situação particular. Colonizadas primeiramente pelos espanhóis, as Filipinas são um país quase que completamente católico. É aqui que se encontra o maior contingente missionário brasileiro.

São 33 pessoas, 2,73% do total. Se considerarmos os dados, somente da Ásia, sobre 82 missionários, 33 estão nas Filipinas, perfazendo 40,24% das forças missionárias brasileiras na Ásia. A proximidade cultural e religiosa com o Brasil permite aos nossos missionários, na maioria, viver numa linha de continuidade. O estilo de pastoral, a situação de pobreza e o mundo simbólico aproximam os dois contextos. Não pode ser deixado de lado, também, o aspeto de "busca" de vocações para as congregações religiosas que pode representar um papel importante na escolha desse país. As Filipinas são um celeiro de vocações para a Igreja.

No seu conjunto, porém, o Oriente permanece um mundo esquecido e distante das preocupações missionárias brasileiras. Determinados desafios que se experimentam hoje no campo missionário provêm principalmente da Ásia. O mundo das grandes religiões, o contato com as culturas milenares e a presença minoritária do cristianismo na Ásia continuam sendo realidades longínquas do nosso contexto. O intercâmbio cultural com as grandes tradições asiáticas chega no Brasil através de alguns novos movimentos religiosos importados e, não tanto, da voz e da presença dos missionários brasileiros.

A renovação missionária da Igreja do Brasil passa, necessariamente, pelo caminho da missão no Oriente, especialmente na Ásia, com toda a problemática inerente.
Vale a pena considerar um projeto original, qualificado e pioneiro da presença missionária na Ásia, levada adiante pela CNBB e CRB: a missão no Timor Leste ou Timor Lorosae, país que há pouco tempo tornou-se independente da Indonésia. As estatísticas gerais mostram que no Timor Leste vivem 7 missionárias e missionários, seguidos com atenção pela Igreja do Brasil. Estes formam uma comunidade intercongregacional, vivem no meio do povo e contribuem para a reconstrução do país dizimado pela guerra.

Missionárias/missionários na Europa?

Os dados confirmam que 19,02% do contingente missionário brasileiro estão na Europa. A pesquisa mais que afirmar que a Europa encontra-se em estado de missão, aponta, na maioria dos casos, para um serviço interno às congregações religiosas. É verdade que existem casos de presença missionária brasileira no meio dos migrantes, mas se trata de situações esporádicas. Na Itália, os 168 missionários estão a serviço das casas gerais, nos vários serviços administrativos, em algum trabalho de animação missionária, cuidando das forças das congregações já debilitadas e idosas. Assim, em Portugal (36 unidades) e na França (33 unidades) repete-se a situação , com poucos casos de presença ativa no campo de atuação missionária. Valeria a pena, no entanto, lançar com mais clareza o apelo a uma presença mais efetiva das forças missionárias brasileiras para uma atuação específica na Europa. A França, em 1945, foi declarada "país de missão", num livro clássico sobre o assunto. Hoje, mais do que nunca, as situações "ad gentes" estão "pipocando" por todo o continente europeu.

Primeiro Impacto da pesquisa

Visto o ingente número de missionárias e missionários brasileiros de congregações religiosas, a Conferência dos Religiosos do Brasil e o Centro Cultural Missionário já estão preparando, para junho-julho de 2003, um encontro especial de todas essas forças. O Programa de Espiritualidade e Revigoramento Missionário) quer avaliar e aprofundar o caminho dos missionários além-fronteiras que estiverem no Brasil naquele período. O encontro está sintonizado com o VII Congresso Latino-Americano Missionário.

Há sempre mais vozes que se levantam para que surja um organismo missionário nacional diretamente envolvido na preparação, no acompanhamento e na re-inserção dos missionários brasileiros além-fronteira. Pe. Toninho, recém-chegado da Costa do Marfim, depois de 19 anos, sente a urgência desse organismo. Ele diz: "Todos os anos, os 34 missionários brasileiros na Costa do Marfim se encontram e gostariam de ter mais contato com a Igreja do Brasil. Às vezes, ela parece estar muito longe de nós".

Esses primeiros dados da pesquisa são somente um começo. A revista Mundo e Missão prontifica-se a abrir as portas para publicar outros dados e reflexões, como por exemplo, as congregações de pertença, o tipo de atividade desenvolvida pelos missionários, o grau de estudo e a formação acadêmica, o contexto de trabalho e outros. Por enquanto, continua nosso apreço à Igreja do Brasil pelo despertar missionário que está acontecendo.

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