Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Fundamentos
da espiritualidade
missionária
Parte II

por Daniel Lagni

Alguns pontos de convergência da espiritualidade missionária

missão é fruto de uma experiência que se vive e do Espírito que sopra onde quer. É um caminho pessoal e eclesial no seguimento de Cristo, descoberto no dia-a-dia da vida, no qual se misturam alegrias e esperanças, certezas e dúvidas, de aspectos nem sempre fáceis de serem definidos. A primeira evidência desta caminhada espiritual é que se trata de uma missão plural, que não tem um rosto único. Ela se
diversifica conforme as situações e os caminhos
que se percorrem...

Uma espiritualidade de diálogo e solidariedade

Vivemos na época da globalização. As vítimas das torres de Nova York, em setembro de 2001, pertenciam a 80 nacionalidades diferentes. Em certas megalópoles, como Los Angeles, falam-se cem línguas diferentes. Nas nossas cidades, cada vez mais os rostos das pessoas revelam um cruzamento planetário de culturas, religiões e etnias. Esta é, sem dúvida, uma nova terra de missão, que não estava na geografia dos tempos passados. Devido à técnica e aos meios de comunicação, de informação e de circulação, as fronteiras territoriais perdem cada vez mais sua importância. Com a mobilidade das massas e dos povos, bem como pelo impacto dos valores globais sobre os locais, uma cultura identifica-se cada vez menos com um território.

Também a missão geográfica começa a ter cada vez menos peso na geografia da evangelização. A missão ad gentes (para os povos não-cristãos) torna-se uma missão ad omnes (para todos), sem fronteiras. Não é por acaso que a crise da missão, nos meados do século 20, coincidiu com o fim da Era Colonial e do modelo ultrapassado de missão. E também não é por acaso que a missão ad tempus (temporária) do voluntariado e dos leigos missionários emerge, hoje, num contexto em que se muda de profissão várias vezes na vida, e a mobilidade das pessoas entra na rotina do dia-a-dia.

Nossa aldeia global é atravessada por divisões e fraturas, que fazem de nós estrangeiros uns dos outros. Pessoas que vivem no mesmo lugarejo, mas que são estranhas umas às outras, que não se conhecem, que não se compreendem, e que por vezes vivem em conflito religioso, de vida e de valores. A pós-modernidade é o reino do subjetivo, do descartável, do individualismo.

Estas linhas de fratura não separam só as diferentes partes do mundo: o Norte e o Sul, o mundo desenvolvido e o que se diz em desenvolvimento. Elas atravessam os centros das grandes cidades, dividem os que têm água potável dos que não têm água nem para se lavar; os internautas e os que não têm acesso à escola; o nativo e o imigrante, o cristão e o muçulmano, o branco e o negro, o incluído e o excluído...

Até há pouco tempo, a Colonização oferecia à missão os territórios a evangelizar, as terras dos infiéis, a infra-estrutura, como o transporte dos missionários, o apoio logístico, a proteção militar, o modelo de missão, os valores a promover e até as metáforas da retórica colonial. A missão ad gentes identificou-se com a evangelização de um determinado território, confiado a um instituto missionário. Não é de se estranhar, pois, que São Paulo seguisse o itinerário das rotas comerciais e das vias imperiais de seu tempo.

Viver hoje a missão é ultrapassar constantemente fronteiras que separam as línguas, etnias, culturas e religiões, além do crescente abismo entre ricos e pobres. As metáforas da missão se exprimem em termos de solidariedade, caminhada com os pobres, diálogo, partilha. Esta espiritualidade reclama a aceitação do pluralismo como bênção e oportunidade para construir um mundo diferente. As religiões não são barreiras, mas caminhos diferentes para Deus se manifestar.

Uma nova abordagem das religiões é necessária para que todas elas colaborem no movimento da humanidade para Deus. Nossos inimigos são o pecado, o mal, e não as outras religiões. Cada cultura faz emergir diferentes aspectos do Evangelho. Seu encontro pode enriquecer a todos, tanto culturalmente, quanto sob o ponto de vista evangélico.

A missão exige do missionário grande disponibilidade e atenção constante aos sinais dos tempos, para discernir a ação do Espírito e tornar-se instrumento nas suas mãos. Já nos distanciamos da missão concebida como salvação das almas, ou como serviço à Igreja, com a finalidade de converter o maior número de pessoas à verdadeira fé ou de criar comunidades eclesiais, dotadas de ministérios e das estruturas que lhe permitissem funcionar autonomamente.

Em geral, hoje o missionário não insiste só na Redemptoris Missio, que é focalizada na evangelização dos que não conhecem Cristo, mas também na Evangelii Nuntiandi e na Populorum Progressio, em que se afirmam os valores do Reino e da pessoa. Em termos conciliares, a missão, hoje conjuga o Ad Gentes junto com a Gaudium et Spes.

Uma espiritualidade kenótica (do despojamento)

A maior parte dos missionários vê, ao entrar em outra cultura, mais que o testemunho da solidariedade entre as Igrejas. O despojamento cultural nos abre ao acolhimento do outro. É passar para o outro lado. É uma kénose (anular-se) à imagem de Cristo, que se despojou de suas seguranças, para identificar-se com aqueles a quem foi enviado. Deixar a sua terra é, antes de tudo, deixar a si mesmo, “descalçar-se”, perder as próprias seguranças, depor as armas, sair de si, para deixar-se acolher por outra cultura, onde o Espírito já se encontra e nos espera. O despojamento é necessário para captar os caminhos do Espírito já presente na missão. É Ele que precede o missionário e lhe indica os caminhos.


Celebração do pré-Comla 7 - Cam 2

O missionário é, assim, o primeiro a ser evangelizado no seio daquele povo. O Espírito está presente não só na história que o missionário vai encontrar, mas também na cultura e até nas crenças religiosas, como também na sua vida diária. É um despojamento que permite ao missionário discernir e descobrir um novo rosto de Cristo encarnado naquele povo, vivendo a sua história e os seus valores. A missão é sobretudo ajudar o povo a fazer esta descoberta. É uma kénose, feita de disponibilidade total, de abertura ao outro, de escuta, de silêncio, de contemplação. A missão é mais paixão que ação. Trata-se de se deixar moldar pela missão, de se tornar permeável no encontro com o outro e de acolher o dom alheio.

Com uma espiritualidade kenótica, os missionários atravessam fronteiras, não como quem dá, mas como quem recebe. Eles não vão para a terra de missão com avançadas tecnologias para modernizar o subdesenvolvimento, com uma cultura superior para civilizar os bárbaros, com uma religião para acabar com as superstições, ou com uma série de verdades reveladas para ensinar aos ignorantes. A espiritualidade kenótica faz do missionário uma pessoa da outra margem, do outro lado. Do outro lado da sua própria cultura, valores, língua-mãe, símbolos nativos, não no sentido de os rejeitar, porque ele tem também a doar, sobretudo a Boa Nova, mas no sentido de esvaziar-se deles, para acolher.

Daniel Lagni, sacerdote da Arquidiocese de Goiânia, atualmente é o Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias (POM) do Brasil.
(Continua no próximo número)
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