Revista "MUNDO e MISSÃO"

Ecologia

Água fonte de vida
É o lema da Campanha da Fraternidade 2004

por Costanzo Donegana

s previsões internacionais dizem que, em 2025, dois terços da população mundial não terão acesso à água potável suficiente. Muitas multinacionais vêem nesta crise para a humanidade uma oportunidade econômica. Fortune Magazine, em maio de 2000, escreveu: “A água promete ser no século 21 o que o petróleo foi no século 20: o precioso recurso que determina a riqueza das nações”. Todavia, ao contrário do petróleo, a água não pode ser substituída!

BEM PÚBLICO

A água foi sempre considerada como um “bem público”, porque é direito e patrimônio de todos os seres vivos: os seres humanos, os animais e os vegetais. A água está diretamente ligada à vida. Podemos ficar semanas sem comer, mas, sem tomar líquidos, uma criança morre dentro de cinco dias e um adulto, dez.

Todos temos diante dos olhos as imagens desoladoras do sertão em período de seca: terra ferida por rachaduras profundas, árvores ressequidas, carcaças de animais abandonadas na poeira, crianças desnutridas com os olhos inexpressivos: morte é a palavra que define este cenário. Mas basta uma chuva benéfica e tudo retorna a viver: a vida escondida reaparece, como chamada por uma voz misteriosa. Mas, nem sempre é possível sarar todas as feridas impressas nos seres humanos e na natureza.

Este “bem público” não é tão “público” como deveria. Para falar só do Brasil (que possui uma riqueza hídrica invejável), 20% da sua população não tem acesso à água potável, 40% da água das torneiras não é confiável, 50% das casas não têm coleta de esgotos e 80% do esgoto coletado é lançado diretamente nos rios, sem qualquer tipo de tratamento. Isso produz conseqüências negativas na saúde que, sobretudo no caso das crianças, são mortais.

Um olhar rápido sobre o uso das águas no Brasil pode mostrar como ele é inadequado e dar uma explicação global da subtração da água a uma parte considerável da população: a irrigação consome 63% e a indústria, 5%, enquanto o consumo humano é de 18% e o animal, de 14%. Um detalhe sobre a agricultura leva a reflexões preocupantes: para produzir uma tonelada de grãos, são necessárias mil toneladas de água!

A essas utilizações da água, acrescente-se navegação, pesca e lazer, mas, sobretudo, a geração de eletricidade, que, no Brasil, provém em 97% das usinas hidrelétricas, que necessitam dos lagos artificiais. Em conseqüência, são as usinas que regulam a vazão de muitos rios.

CRISE DA ÁGUA

Estes acenos legitimam a expressão, hoje comum, de “crise da água”. “Não é apenas uma carência quantitativa, mas também qualitativa. A destruição dos mananciais, devido, principalmente, à devastação das matas ciliares, a contaminação dos mananciais por agroquímicos, resíduos industriais, metais pesados dos garimpos, esgotos urbanos e hospitalares, além do aumento do consumo na agricultura (irrigação), pecuária, indústria e consumo humano, projetam uma imagem de ‘escasseamento progressivo’ das águas” (Texto-base da CF, n.37).

Diante dessa crise, têm sido avançadas muitas propostas de solução, que podem ser resumidas em duas, opostas entre si: a água como negócio ou a água como vida. A primeira vê na água uma mercadoria como muitas outras, um valor econômico que pode ser comprado e vendido. Sendo que agora está surgindo o problema da escassez da água, pode-se aproveitar para geri-la conforme as leis do mercado, transformando-a em objeto de lucro.

Isso está acontecendo em todos os níveis, do proprietário de um terreno onde há uma nascente, que cobra o uso da água dos vizinhos, à multinacional que privatiza a água de um lugar para lançá-la no mercado. Como a Nestlé, proprietária de 68 companhias de água engarrafada, que tira água do lago Michigan, nos Estados Unidos, com um lucro de cerca de 1,8 milhões de dólares por dia. 65% dessa água deixa a região, para ser vendida em outros lugares.

A outra proposta quer preservar a água em favor da vida, racionalizando seu uso, sem permitir que seja objeto de compra e venda. A água é considerada no seu valor biológico, como fonte de vida; no seu valor social, como bem para todos, que exige um controle social; no seu valor simbólico e espiritual, como elemento cultural e religioso; na sua dimensão ecológica, no contexto da biodiversidade e da preservação do ambiente. O controle sobre a água não deve ser feito pelos mecanismos do mercado, mas por organismos públicos e democráticos.

Já se fala em guerra da água, como recentemente se falou em guerra do petróleo. Para que isso não aconteça, “(...) faz-se importante uma revolução na maneira de considerar a água (...). Devemos ver a água como bem destinado à vida de todos, e mesmo de todo ser vivo, e por isso um Direito Natural inalienável, sobre o qual cabe a gestão democrática e participativa” (Id. n.146). Para isso, devemos despertar a consciência de nossa co-responsabilidade no que se refere à água.

Todos: pessoas, comunidades, escolas, meios de comunicação, instituições políticas, jurídicas, sociais, culturais e religiosas devem ser conscientizados sobre esse assunto.

ÁGUA PARA TODOS

O Texto-Base da CF, na última parte, propõe uma longa série de ações para realizar concretamente os objetivos específicos (cf Box). A seguir, lembro algumas. Conversão pessoal, que atinge os hábitos cotidianos, como abrir uma torneira, escovar os dentes, tomar banho, lavar a louça, lavar o carro, evitar de poluir a água, etc. Mas, também, conversão coletiva, que “exige participação na luta pela água, na solidariedade com os sem- água, na preservação dos mananciais, na recuperação dos mananciais degradados, na construção de parcerias, na invenção de novas técnicas...” (Id. n.150).

Manifestar solidariedade com as populações das periferias, muitas vezes privadas ou limitadas no uso da água e obrigadas a ocupar áreas de risco. É importante apoiá-las em suas organizações e lutas pelo acesso à água de qualidade e moradias em segurança. Unir Fome Zero com Sede Zero (construir um milhão de cisternas em cinco anos no semi-árido). Cada paróquia arrecade pelo menos o valor de uma cisterna (mil reais) para solidarizar-se com uma família do semi-árido. A água é um bem fundamental e hoje coloca as pessoas e a sociedade diante de uma escolha radical: ou o lucro ou a vida.

Esta matéria foi tirada do Texto-Base da CF 2004

Objetivos específicos da Campanha da fraternidade 2004

  • Conhecer a realidade hídrica do Brasil a partir da realidade local.
  • Desenvolver uma mística ecológica, que resgate o valor da água nos seus fundamentos mais profundos.
  • Apoiar e valorizar as iniciativas já existentes no tocante ao cuidado com a água, preservação das águas, captação de água de chuva e recuperação de mananciais degradados.
  • Provocar e alimentar a solidariedade entre quem tem água e quem não tem.
  • Defender a participação popular na elaboração de uma política hídrica, para que a água seja, de fato, de domínio público, e seja gerenciada pelo poder público com participação da sociedade civil e da comunidade local.

Texto-Base, n.º 3

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