Revista "MUNDO E MISSÃO"

Bíblia e Missão

Por Sérgio Bradanini

o longo da narração da Paixão, há uma cena muito interessante e significativa em que o evangelista João evidencia a "realeza" de Jesus e a sua missão, que consiste em "dar testemunho da verdade". Jesus reivindica para si o título de 'rei', evidentemente não no sentido de conquista do poder ou para exercer o domínio sobre os outros, mas para mostrar que se trata do exercício de uma dimensão que chega a doar totalmente a própria vida. De fato, tudo isso acontece exatamente diante de Pilatos, o representante da soberania e da dominação do império romano.

"Jesus respondeu (a Pilatos): 'Tu o dizes: eu sou rei, para isso eu nasci e para isso eu vim ao mundo; para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz'. Disse Pilatos: 'Que é a verdade?'" (Jo 18,37-38). Todos os evangelistas estão de acordo em mostrar que a realeza de Jesus revela-se paradoxalmente no contexto da Paixão, mas João realça com mais clareza os contrastes entre as personagens.


Cristo de Rembrandt, 1650 - Museu Estatal de Berlim

Interrogado por Pilatos, Jesus assume abertamente o título de 'rei' como expressão das promessas messiânicas, mas o esvazia de todas as ressonâncias políticas, pois o seu "Reino não é deste mundo" (18,36).

A 'realeza' de Jesus não entra no jogo de concorrência com a soberania romana, aliás, muito pelo contrário: ela tem sua origem em Deus e tem como finalidade oferecer a salvação para a humanidade inteira.

Entre Jesus, que revela a soberania divina, e Pilatos, que representa a soberania romana, a distância é imensa. É interessante notar que Jesus desempenha a sua missão de revelar a soberania divina, na qualidade de "testemunha da verdade", envolvendo os que sabem acolhê-lo mediante a escuta da Palavra.

Tudo isso significa que Jesus está totalmente disponível para cumprir a "verdade de Deus" que se identifica com a sua intervenção na história em favor da humanidade. Jesus desempenha realmente a sua missão de 'testemunha da verdade' porque nele se manifesta historicamente a 'verdade/fidelidade' de Deus em cumprir as promessas messiânicas (cf. Rm 3,3-7). Pilatos, evidentemente, está preso a outros projetos e a razões de ordem política, por isso ao perguntar "o que é a verdade?", ele mostra que seu modo de conceber a soberania e que a questão da verdade se situam num âmbito muito diferente. Diante disso, o silêncio de Jesus assume paradoxalmente uma dimensão de eloqüência formidável: toda a sua vida e a sua pregação são a resposta mais autêntica a esta pergunta.

É suficiente lembrar a expressão de Jo 14,6 em que o próprio Jesus revela a sua identidade aos discípulos como "caminho, verdade e vida". Esta expressão mostra uma clareza e uma precisão impressionantes, porque, de fato, Jesus não afirma que está dizendo a verdade ou que seu jeito de falar e de agir é verdadeiro, mas diz, sem ambigüidade: "Eu sou a verdade!". O evangelista, sem dúvida nenhuma, deixa transparecer que, nesse contexto, a "verdade" exprime a dimensão de "fidelidade/comunhão" que une o Pai e o Filho na realização do mesmo projeto de salvação.

Ora, se essa "verdade" revela a identidade de Jesus, significa que João quer que o leitor se pergunte: "Quem é Jesus?". A resposta exige coragem e compromisso: de fato, pode fazer desmoronar brutalmente muitas outras 'verdades' fantasticamente construídas também por parte de muitos que se dizem 'seguidores'. É suficiente lembrar que a missão de Jesus termina na Cruz, lugar onde se revela totalmente sua identidade como "verdade suprema", como "caminho" que leva ao Pai e como "comunhão de vida" que permanece disponível para sempre. "Quem é da verdade" saberá oportunamente "escutar a sua voz!".

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