Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Religiões afro-brasileiras

A visão de mundo africana influencia os símbolos do Candomblé, mas também o processo da escravidão e o transplante violento da religião nagô no Brasil estão presentes na composição do Candomblé.

A visão do mundo africana, centrada no eixo religioso da vida, faz com que todos os elementos, animados e inanimados, sejam imbuídos de uma força vital que promove a ação e é fonte de poder e eficácia.

Essa força, chamada axé na língua nagô ou yoruba, permite acontecer o devir: força inerente às realidades e torna possível o processo vital.

Juana Elbein dos Santos, uma grande estudiosa do Candomblé, diz que o axé reside no sangue dos seres vivos e nas substâncias essenciais de cada ser.

Os ritos e os símbolos que enriquecem a vida religiosa africana implicam a transmissão e a revitalização do axé. Os ritos de passagem, os ritos de casamentos, os ritos de nascimento e de iniciação transmitem o axé, sendo que esta força entra em contato com a pessoa e com os objetos sagrados. Uma grande síntese espiritual anima o cotidiano e o concreto da vida.

Para o povo nagô, a vida humana transcorre em dois níveis: o mundo físico e o mundo dos orixás, dos seres divinos, dos antepassados que interferem no cotidiano da vida.

No mundo africano tudo é cheio de vida e está vivo. É uma vida às vezes ameaçada por forças que atemorizam, mas é também um mundo de espíritos que protege e acompanha as pessoas. São raios e trovões ameaçadores, mas também chuva e rios que permitem a colheita e a comida.

Pai de santo diante diante da pedra sagrada

O grande mistério da vida é celebrado nos rituais do nascimento e do casamento.

O Deus supremo e uma infinidade de seres intermediários garantem a unidade e o dinamismo da vida Africana. Olorum, o Deus supremo, pode entrar em contato com os humanos através dos orixás ou divindades intermediárias.

Estas últimas são forças, axé, energia vital provindo de antepassados excepcionais. Incorporando-se em pessoas recebem devoção e respeito, mas também fornecem proteção e força.

O africano é um "ser com" e " vive com". Fora da comunidade se sente isolado, ameaçado, desamparado e perdido. Tem sempre uma necessidade de manter ligações com membros de sua família, clã, e o grupo social menor. No interior do clã, que é uma unidade de vida, vivos e defuntos convivem numa simbiose coletiva. Sim, também os defuntos continuam sendo uma parte integrante da vida, estabelecendo uma solidariedade de destino com os viventes sobre esta terra.

A pessoa africana encontra sua força vital, seu sentido, seu potencial de ser enquanto se encontra unido a outros, visíveis e invisíveis.

Todos os princípios de vida, a manutenção dos mitos, a repetição dos ritos e a manutenção dos principios de comportamento estão englobados na vida comunitária. Fora da comunidade, é só confusão e morte.

Os princípios éticos dos africanos estão enraizados em conceitos chaves como vida, solidariedade, força e harmonia.

A vida é um bem que deve ser preservado e defendido, procurado e intensificado. Comunicar a vida é a expressão ética fundamental. A mulher-mãe é valorizada e a sexualidade protegida porque transmitem vida. A morte, mesmo que recuperada num nível superior, representa uma diminuição de vida e assim traz sofrimento e carência de energia vital.

A solidariedade clânica representa o princípio de identificação e de existência. Fora do clã existe confusão, perda de referência e desintegração do indivíduo. É como se um ramo fosse cortado da árvore que o alimenta. Seca e se torna ineficaz.

A força, também física, é procurada como valor indispensável. Maior força indica maior possibilidade de sobreviver em contextos muitas vezes difíceis, como a floresta e a ameaça dos animais ferozes.

Também a harmonia é um bem a ser preservado. O equilibrio clânico e o uso hamônico da força fazem do africano um ser potencial capaz de se tornar um ancestral e, como tal, respeitando como símbolo de uma existência realizada.

O Candomblé é revelador de matrizes culturais africanas, mas também guarda no seu íntimo o trauma do transplante violento do escravo africano e de suas religiões no Brasil.

Um pai de santo leva os objetos rituais

A escravatura dos negros representa a chave de interpretação da sobrevivência e da proliferação das religiões africanas no Brasil. Fala-se de 3.600.000 negros escravos trazidos à força ao Brasil.

Eles provinham de diferentes países africanos e de diferentes tradições religiosas. Nos portos da África, os negros eram reunidos na espera da chegada de um navio negreiro. A partir deste momento o sofrimento físico era associado ao aniquilamento cultural. Amontoados como animais, eram selecionados e misturados.

Chegando ao Brasil, os negros eram vendidos nos mercados de escravos e, depois, levados a diferentes locais de trabalho.

É neste contexto que as tradições culturais e religiosas africanas, incapazes de encontrar um contexto favorável, procuraram sobreviver na clandestinidade. Eram como peças soltas de um mosaico fragmentado e quebrado. Controladas pelo catolicismo dominante e misturadas com o catolicismo popular lusitano, elas foram resistentes. As referências às memórias passadas mantinham vivas as sementes da identidade africana.

Sobretudo as tradições religiosas negras se mantiveram às escondidas por 400 anos e, em muitos casos, reconstruídas dentro de novos contextos e circunstâncias.

Os terreiros foram os espaços vitais para recriar os espaços simbólicos e a manutenção da vida tradicional. Na África, os orixás eram cultuados em cidades ou num país inteiro. No Brasil o espaço de recriação cultual se concentrou nas unidades dos terreiros. É nestes espaços sagrados que, simbolicamente, foi concentrada a totalidade do mundo africano. E foi assim que, por muito tempo, as religiões africanas se adaptaram, se recriaram e sobreviveram no contexto brasileiro.

1. O grupo religioso do Candomblé

Juana Elbein dos Santos escreveu que “devido a vários fatores, a cultura nagô - classificada como yorubá pela etnologia moderna, proveniente do Oeste da Nigéria, centro e sul do Daomé, composta por grupos oyó, egbá, egbado, ijexá, sabé e ketu - influenciou todas as outras, quer seja a gegê, proveniente de Daomé e cujos traços culturais são semelhantes aos dos adjá, fon, ghuedá e jegun, quer seja de origem bantu”.

Foi, sobretudo nos terreiros que se mantiveram vivos os sistemas culturais herdados.

Terreiros

Os terreiros são comunidades de vida em que a visão de mundo africana se mantém presente e viva; em que a reconstrução familiar-clânica continua subsistindo e em que a vida comunitária revela os traços culturais dos africanos.

Todos os membros se encontram unidos na mesma fé, protegidos pelos orixás, submissos a uma autoridade religiosa e espiritual, na qual uma solidariedade econômica-religiosa fundamenta a co-responsabilidade do trabalho.

Os membros estão unidos como uma parte num todo por laços consangüíneos de iniciação e por referências a um mundo acompanhado pelos ancestrais.

A autoridade espiritual e moral é concentrada nas mãos dos “pais” ou “mães de santo”, chamados também de “babalorixás”ou “ialorixás”. O nome “mãe” e “pai” significa que os adeptos aceitam uma segunda educação pelas mãos de pessoas significativas em suas vidas.

Cabe aos chefes do terreiro presidir as cerimônias religiosas, receber os convidados, raspar a cabeça dos iniciados, supervisionar os ritos e apontar os novos iniciados.

A estrutura do Candomblé inclui duas categorias de pessoas: os iniciados propriamente ditos e os titulares, pessoas executivas e honoríficas. Os primeiros percorrem todo o processo formal de iniciação, do aspirante ao supervisor religioso do terreiro. Há também um grupo ligado à hierarquia do terreiro, mas incapaz de receber as divindades. São as équedes, consagradas ao serviço dos santos e atentas às filhas de santo quando estão incorporadas.

O segundo grupo, propriamente dito, é representado pelos “ogãs”, pessoas que exercem um cargo executivo e honorífico no Candomblé. Contribuem para solucionar problemas jurídicos e formam um corpo seleto de prestígio.

Os terreiros gozam de uma certa autonomia, mesmo que haja um relacionamento entre si. A autonomia é fonte de prestígio e, muitas vezes, também de conflitos e tensões entre os babalorixás. Sendo uma realidade relativamente autônoma, a interdição do incesto regula as relações entre os membros. Sendo que todos participam do mesmo axé, a interdição sexual entre os membros da mesma família é constitutiva e normativa.

Pe. Giorgio Paleari

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