Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Educação

É interessante notar como hoje em dia o perdão está deixando de ser somente um conceito religioso. Mesmo correntes dentro da psicologia estão valorizando a purificação da consciência mediante o reconhecimento das próprias faltas. E este é, sem dúvida, o primeiro passo para o perdão.

É evidente que existe uma dificuldade muito grande para perdoar. Em nível pessoal e coletivo, o comportamento do ser humano continua o mesmo. Grupos em guerra com outros grupos, indivíduos em crise contra indivíduos, marido contra mulher, pais contra filhos, filhos contra pais, pobres contra ricos, ricos contra pobres, religiões contra religiões.

E a tônica é sempre a mesma: Eu estou certo e eles estão errados. E se por acaso eu errei é porque “eles” me pressionaram demais... A culpa não é minha... É argumento dos opressores, dos terroristas, dos fanáticos... Do ser humano, enfim.

Para perdoar, às vezes pede-se um autêntico heroísmo e quem não é capaz disso arrisca de levar adiante as mágoas, quando não é ódio, até o fim da vida. Trata-se de situações muito tristes que, muitas vezes, chegam a dividir famílias que eram vistas como exemplo de unidade.

Na escola da vida não faltam oportunidades para perdoar, mas, para isso, pede-se uma grande abertura e uma disponibilidade total.

Um dia Pedro arriscou uma pergunta a Jesus, já respondida pelos rabinos da época, que admitiam no máximo de três ou, no limite, quatro perdões: “Mestre, quantas vezes tenho que perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?” Jesus respondeu-lhe dizendo: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete!” (Mt 18, 21-22).

E para que não restasse dúvida alguma, Jesus contou a parábola do “devedor implacável”: aquele que, devendo muitíssimo ao seu rei e tendo sido perdoado, não soube ser misericordioso para com o companheiro que lhe devia pouca coisa.

Resultado: foi-lhe retirado o perdão. Assim Jesus conclui a parábola: “Eis como o Pai celeste agirá convosco, se cada um de vós não perdoar, de coração, ao seu irmão” (Mt 18,35).

Deus pede que a gente perdoe sempre. Custe o que custar. Tenhamos ou não razão! Trata-se de um gesto maravilhoso, divino, podemos dizer, já que só Deus, como afirma a Bíblia, perdoa e esquece, desde que não nos fechemos ao seu perdão. Enquanto não formos misericordiosos, podemos pretender alcançar misericórdia? (cf. Mt 5,7)

Aos cristãos, Jesus fez mais uma recomendação: “Se estiveres para trazer a tua oferta para o altar, e ali lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão. Só depois virás apresentar a tua oferta” (Mt 5,23-24).

Na prática, porém, vê-se que até em família, e nas próprias comunidades religiosas, é difícil “dar o braço a torcer”, tomar a iniciativa da reconciliação! E continuamos a “levar a nossa oferta diante do altar”, embora saibamos que nosso irmão/irmã tem “ alguma coisa” contra nós.

É uma exigência do Evangelho que deve ser levada muito a sério! Naturalmente, não devemos confundir perdão com impunidade, pois a ordem social deve ser preservada e os prejuízos devem ser ressarcidos. O que tristemente nem sempre acontece, e com grande prejuízo para os cidadãos.

O julgamento é um grande bloqueio ao perdão. Infelizmente, muitas vezes nós somos verdadeiras máquinas de julgar. Aprendemos a julgar desde cedo, e continuamos a julgar tudo e a todos os que passam pela nossa frente e que não se ajustam ao “nosso mundinho”.

Infelizmente nós construímos um mundo particular, a nossa zona segura e confortável. Tudo o que sai dessa zona, que se diferencia disso, nos perturba, nos aborrece, nos faz mal.

É desagradável e humilhante reconhecer-se limitado. A questão é que o orgulho nos leva para a auto-suficiência, enquanto que, para praticar o perdão, tenho que abrir mão do meu direito de “estar certo” sempre e em todas as situações.

Disso parte a maldita mania de criticar e condenar os nossos irmãos que, sem dúvida, deveriam ser louvados e enaltecidos pelos inúmeros lados positivos que eles têm.

Sentir-se culpado e admitir o próprio erro pode ser fonte de equilíbrio e sinal de maturidade. Acontece porém que muitas vezes constatamos que não sabemos perdoar nem a nós próprios. Sentimos remorsos e sentimentos de culpa que angustiam nossa existência.

Mas, o que é este sentimento de culpa? É uma tristeza, um mal estar por fatos errados acontecidos ao longo de nossa vida. É um sentimento de culpa que se resume nesta expressão: “Não deveria ter feito isto”. Diante disso, o indivíduo é inclinado a se julgar como um sujeito mau, ruim, errado, infiel, incoerente.

Nasce assim um sentimento de frustração e de culpa que vai corroendo por dentro, alimentando a tristeza, o fechamento e o mau humor. Infelizmente, este complexo de culpa, longe de nos animar para o crescimento, na busca por grandes ideais de doação e serviço, faz-nos gastar energias em lamentações por aquilo que já ocorreu.

Perdoar a si mesmo é restabelecer a própria unidade interior. O auto-perdão é um sim à vida. O amor de Deus é maior que os nossos erros e pode transformá-los em novas perspectivas de vida e de esperanças.

Outros podem não perdoar. Mas o cristão que quer viver autenticamente sua fé e os ideais evangélicos, deve perdoar, pois faz parte da essência do cristianismo condenar o erro e amar o pecador. É por isso que o cristianismo é uma religião difícil de se abraçar.

Depois de tudo que foi dito, não hesitemos em assumir a nossa responsabilidade de sermos misericordiosos, de perdoar, à imitação do nosso Mestre.

É uma opção de vida que nos faz olhar para a frente e que só contribuirá para melhorar este mundo cada vez mais angustiado pela falta de fraternidade e de perdão que provoca tantas guerras e divisões.

Pe. Paulo De Coppi

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar